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segunda-feira, 20 de outubro de 2025


 

Colecionador de Caminhos


O Colecionador de Caminhos não colecionava objetos, mas o eco de passos que tropeçaram. Suas prateleiras não eram de madeira, mas de tempo solidificado, onde repousavam fragmentos de alma dilacerada — almas fragmentadas pelas perdas prematuras, o avesso do parto, quando filhos seguem antes dos pais. Sua coleção era um arquivo de lutos e de reconstruções começadas no escuro.

“Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Da filha que já morreu” - Pedaço de mim

Ao completar setenta voltas ao sol, ele não se desfez de Canecas, mas libertou as narrativas que elas guardavam. Sempre atento às mensagens colhidas pelo Caminho, deixou que seus amigos se encontrassem com elas, permitindo que novas conversas florescessem. Agiu com a fé silenciosa de que as histórias colecionadas poderiam se entrelaçar com outras jornadas, tecendo uma tapeçaria com o toque do Eterno.

Em sua sabedoria, sabia que aquelas Canecas estavam prontas para acolher novas histórias, guardá-las e mantê-las sagradas. Quanto a ele, continuaria a gravá-las para sempre, não na cerâmica, mas no coração – o único santuário capaz de conter mistérios sem esvaziá-los.

Foi então que os olhares se cruzaram:

Caneca e Peregrino

Ela, de cerâmica simples, estampando uma onda azul e o sol amarelo em círculos com seu convite despretensioso: “Bora pra Cabo Frio”.

Ele, com o mapa da própria vida dobrado e amassado no bolso.

Olhares paralisados, ele se sentiu desafiado, não por uma pessoa, mas pelo peso de uma memória doída, amassada e muito bem guardada. Um Vazio com nome, um peregrino que precisa de abrigo.

Ela, de cerâmica simples, estampando uma onda azul e o sol amarelo em círculos com seu convite despretensioso: “Bora pra Cabo Frio”. Ele, com o mapa da própria vida dobrado e amassado no bolso. Olhares paralisados, ele se sentiu desafiado, não por uma pessoa, mas pelo peso de uma memória doída, amassada e muito bem guardada. Um Vazio com nome em um peregrino que precisa de abrigo.

E do fundo daquela louça, exalou uma memória olfativa: o cheiro de um livro (Presente do Mar) cujas páginas descrevendo as etapas da vida direcionaram sua trajetória, seus sonhos, sua vida. Estampada em sua memória a capa azul. A última etapa não seria o fim, mas o lançar-se: a história do Argonauta, que depois de construir sua casa, gerar seus filhotes e vê-los seguirem rumo ao horizonte imenso, infinito e Eterno, entrega-se à esperança profunda do oceano, construindo seu próprio barco, seu lar final.

A caneca não estava vazia. Carregava outra narrativa entalhada em seu esmalte: a de um casal que viu seus gêmeos partirem para o Eterno num mesmo suspiro: o primeiro e o último, dados antes mesmo do abraço acolhedor dos pais. Um luto-sem-fim, um silêncio que ecoava o seu próprio.

A convivência com o Colecionador de Caminhos a capacitou a acolher outras histórias com a mesma empatia. Ela sempre criava novos espaços. Espaço para a história do Peregrino.

Ele segue resiliente, construindo seu sonho e, assim, reconstruindo a própria vida dilacerada. É o encarnar de uma dor: a dor-revés de um parto há quase treze anos. Mesclando sua esperança no horizonte infinito do mar com a imagem dela seguindo para os braços do Eterno, deixando para trás a certeza de que seu pai daria conta. Seu mundo já não era o mesmo, sua atmosfera era outra.

Era esse o ofício do Colecionador: ser um cartógrafo de almas perdidas. Amigos há mais de três décadas, suas histórias já entrelaçadas e enraizadas. Sempre com empatia, ele acolhia o Vazio enlouquecedor vivenciado pelo Peregrino desde a ida de sua filha. Ele não oferecia rotas de fuga. Apontava, com o dedo quieto da amizade, para o próprio abismo, sussurrando: 

“a casa que você constrói agora deve ter quartos para essa ausência, tão presente!”

E o Peregrino construiu. Não uma casa com alicerces na terra, mas um casco sobre as águas. Um veleiro. Sonhado um ano antes da partida, sua construção não foi interrompida pela tragédia; pelo contrário, ao materializar esse sonho da última morada ele foi carinhosamente se reconstruindo, garantindo que seu Vazio teria espaço em cada passo, em cada ação. O barco tornou-se a Arca do Argonauta, destinada a carregar o nome e as cinzas daquela que primeiro se lançou ao infinito.

De volta ao café, no centro da celebração, o Peregrino segurou a caneca. E não houve explosão, mas um silêncio que era puro entendimento. Um silêncio que imprimiu em sua alma a fragrância da ausência presente. A onda azul e o sol amarelo já não eram apenas um símbolo, era o próprio mar inundado de todas as histórias.

O Argonauta das páginas era sua biografia presente-futura. A dor do casal, a sua dor-irmã. O Colecionador, ao estender-lhe aquele pedaço de cerâmica, não cumpria um ritual. Tecia histórias, deixando-se levar pelo Eterno. Abria uma vereda para que a jornada do amigo se entrelaçasse com a jornada já registrada na caneca.

O Peregrino levou a caneca aos lábios. O café era a sua própria vida: amargo, quente, necessário. E a frase Bora pra Cabo Frio já não era um convite geográfico, mas um chamado para dentro do mistério — um convite para permanecer na vida de mistérios, onde as alegrias sempre estarão permeadas com as tristezas e as dores das ausências registradas nos próprios corpos.

Ele olhou para o Colecionador. Sorrisos se estamparam, não eram encontros de respostas, mas a certeza de quem aprendeu a habitar e a transitar no hoje, apesar dos mistérios. Sorrisos que carregam o peso e a leveza da compreensão mútua. Ambos os corpos se encontraram num abraço fraterno de quem sente a dor do outro, uma dor que dói em si mesmo.

A caneca repousou. Sua missão era ser um vaso, um lugar de trânsito para histórias que se reconhecem. Ela unira os fios. Agora, cabia a cada um seguir, o mais leve possível, seu próprio caminho para o mar — não por saber a direção, mas por ter aprendido, no aroma salgado do mundo, a fragrância do Sagrado.

Bora pra Cabo Frio!

memórias de um caminhante em 20-out-2025

domingo, 27 de março de 2016

Ainda quantas Páscoas mais...

... mais uma!
... quantas mais?


entre a Cruz e a Páscoa...
um olhar desiludido
um olhar esperançado 
Há pouco mais de 2 mil anos (2 mil Páscoas), entre a Morte e a Ressurreição do Cristo foram 3 dias na mais absoluta desesperança. 

A Dor e a Ausência daquele que fez toda a diferença na vida daqueles que o seguiam. Quase ninguém mais se lembrava das Suas Palavras que Ele reaveria a vida mais uma vez, não importasse a Morte que o havia levado deles. 

Alguns esperançavam-se, mas na distância da quase desesperança. Sim, Ele não estaria mais ali com eles. Lembravam-se das Suas últimas Palavras, remoinham suas lembranças... esvaiam-se desiludidos.

Hoje, vivencio mais uma Páscoa, com sabor amargo do fel da dor e da desesperança ao longo dos 3 dias (ou dos mais de 1.000 dias de quando ela se foi), da ausência e da certeza que a Morte arranca de nós parte de nós mesmos, apesar do lampejo de esperança na [in]certeza de quantas mais Páscoas viverei.

Assisti na 6a.feira o filme Ressurreição no olhar desconfiado do Tribuno Clavius... o olhar de Jesus morto dependurado na maldita Cruz atingiu fundo a sua alma incrédula. 

E, vivenciar a experiência de um incrédulo que já não conseguia acreditar nas estórias e nas mentiras que pareciam justificar que o Corpo de Jesus havia sido roubado e escondido. Que transitava entre a incredulidade e a credulidade da [in]certeza do que sempre acreditou ser a certeza.

Na antiguidade quando o povo hebreu seguiu Moisés na esperança de uma Páscoa ainda desconhecida... e, depois nos tempos de Jesus quando seus discípulos e amigos chegados seguiram a esperança de uma Páscoa tão falada mas também ainda desconhecida.

Adentrar-se num Caminho de mão única, que através da Cruz (Morte) espera-se a Páscoa (Ressurreição)... é adentrar-se na [in]certeza da certeza de uma espera[nça] de alguns dias, de alguns meses, de alguns anos... ou de tantas décadas que já quase não se espera mais.

Amar[gar] nesse Caminho que tem o comprimento da Cruz e uma Luz tão forte ao final que nos cega e nem sempre traz a certeza que lá está a Páscoa tão esperada e ainda não vivida ou vivenciada em nossas finitas entranhas.

Caminhar com Esperança é ser desiludido, é não ter mais ilusões... "do contrário, o que você tem não é esperança, é ilusão." - citando texto de Paulo Brabo quando comenta sobre a carta do pessimista Cláudio Oliver.

Esses amigos que a gente encontra pelo Caminho percebem, vivenciam e escrevem aquilo que vai na Alma da gente (como se a vasculhassem e lessem com a clareza de uma lupa)... e, que apesar de um lampejo de Esperança, sabe-se que a desilusão é total, completa... e, vazia - do tamanho da própria Cruz do Cristo.


Há uma Cruz vazia
Há um Túmulo vazio
Há um Mundo vazio
Há também um Coração vazio

Li e reli a carta escrita oriunda do coração desiludido e pessimista, na tentativa de agarrar-se à Espera[nça]... "Espero (e como poderia deixar de esperar) a ressurreição e a vida. Não por otimismo, mas exatamente por me alinhar aos pessimistas."

E, enquanto espero a Páscoa final e definitiva na Eternidade...
... junto ao Eterno
... junto aos que se foram
... junto aos que irão
... junto à Eterna Gabriela

Brotando da minha alma transcrevo como se fossem minhas, as palavras de Cláudio Oliver ao seu amigo Paulo Brabo: 


"...sempre melhor do que mereço, sempre perdido, dependente de esperar, pois esperando, declaro meu pessimismo, e me agarro em algo, que pelo menos, tem mais chance de dar certo, e ressurgir, do que a fé na possibilidade de que aumentar a dose do remédio que nos mata irá nos curar."


Entre a Morte (separação) 
e a Ressurreição (reencontro) permeia 

... um sentimento de desalento
... um sentimento de abatimento
... um caminhar a um passo do esmorecimento. 

A letargia imposta pela separação aguardando o reencontro, num sentimento sem sentido, parecendo que não há mais o que fazer.

"É uma saudade
Que invade
Que arde por dentro
Não há pensamento
Corrente de vento
Que vire esse leme

Pra outro lugar"
Anna Ratto em Desalento


quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Ah! Como eu gostaria...
que não tivesse existido

Último dia do ano
Ah! Como eu gostaria...

Nossos vizinhos com a casa cheia de amigos e familiares. E, eu me sinto sem vontade alguma de levantar-me e ir ter com eles.

Ah! Como eu gostaria...
que este dia fosse diferente

Nas mãos estou com os 2 livros My Social Book impressos... ambos relatam um história pelo Caminho. Uma história em que escancaro a minha Alma aos meus amigos. Deixo que vejam as loucuras de alguém marcado pela Morte neste Caminho de volta pra Casa do Pai.

Reli as primeiras 15 páginas. Lágrimas brotam nos olhos e escorrem pelo rosto... conectadas à Dor e ao Vazio que trago no peito.

Segunda Impressão em 12/12/2015

Primeira Impressão em 26/12/2014

Neste ano...
pouco escrevi depois de 04/JULHO
(25 meses)

Depois dessa data, corri e afundei-me no trabalho, distraindo-me de tal sorte... que pareci ser um cara de sorte. Mas, nas idas e vindas dessa atividade frenética que foi este 2º.Semestre... sempre me vi com um Vazio na Alma que tantas vezes parecia ser maior que a própria Alma.

Ah! Como eu gostaria...
que este dia fosse diferente

Tento me agarrar às minhas memórias... mas, elas parecem dormir. Tento buscar meus textos e eles teimam em esconder-se atrás de uma comunicação interrompida com a nuvem dos aplicativos e dos blogs.

Fico observando a capa do livro que recebemos esta semana... um livro que relata o Vazio além de expressar as Vozes pelo Caminho, sejam através de flores, de sons, de amigos... ou simplesmente percebendo nas entrelinhas o cuidado do Eterno.

Cuidado do Eterno!

Ah! Como eu gostaria...
que todos nós revisitássemos nossos conceitos

Me sinto acovardado e completamente impotente diante de um turbilhão de pensamentos, ideias e conceitos quebrados, desconstruídos... apenas escombros cinzentos.

Me sinto diante do Eterno que deixa Sua Respiração presenciar o meu próprio desencanto, meu desalento, minha solidão. Solidão? Sim, solidão... me sinto empurrado para um canto, longe de tudo e de todos.

Desci do trem.

E ele passa em alta velocidade, sinto seu rastro de vento levando junto consigo minhas distrações e me faz perceber que estou só. Mas... eu preciso olhar mesmo pra dentro de mim. Quero me lembrar... lembrar de um tempo onde jamais imaginei que ficaria só.

Ah! Como seria hoje...
se não tivesse existido 04/06/2013?

Eu com certeza olharia para essa pergunta e abriria o maior sorriso... abriria meus braços com toda a elasticidade e com todas as minhas forças correria ao seu encontro e a abraçaria como nunca a abracei. A esmagaria de amor entre meus braços contra o meu peito e a cobriria de beijos.

Se eu pudesse olhar mais uma vez para você... depois daquele último olhar, quando nossos olhares mais uma vez se encontraram depois de nos despedirmos... você fora do jeep, em pé na calçada, um olhar meigo.

Ah! meu Deus...
porque eu não percebi
que seria o último olhar da minha filha 

Como eu gostaria de ter percebido isso naquela hora... e, não ter me afastado dela.


Ah! Como eu gostaria...

.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Quando penso em você...
e na sua partida


vazio
há tantos vazios
mas, há vazio que não se preenche

Fagner

Quando penso em você
Fecho os olhos de saudade

você está nos meus pensamentos todo dia, em tudo que vejo ou que vivencio, nos momentos vividos, nas lembranças que brotam das minhas entranhas...

na expressão carinhosa da sua mãe, nos meninos afoitos em seus afazeres, com seus amores e que correm entre os canteiros da vida...

mas, hoje o aperto no peito é muito maior, a dor parece que vai me arrebentar por dentro, parece que o Vazio cresce e inunda completamente minha vida, minha alma, meu coração, meu tudo...

acordei pensando em você, olhos fechados e você nas imagens que correm pelos meus pensamentos, olhos abertos e falta você, falta você, falta você...

há 2 anos você partiu para sempre jogando-se no colo do Eterno, e Ele a acolheu...


Tenho tido muita coisa
Menos a felicidade

desde que me entendo por gente, felicidade era algo pra se buscar, algo que valia a pena correr riscos, algo que valia a pena permanecer no Caminho...

felicidade seria um estado de alma, seria a contemplação do belo, seria a introjeção da feliz idade dentro de nós mesmos, seria, seria...

lampejos de felicidade é o mesmo que menos felicidade, é saber que no meio desses lampejos e também por serem lampejos de felicidade...

há a ausência da total felicidade, pois no meio, entremeado, engastado e engasgado está a tristeza que advém...

de uma partida madura
de uma partida pré-madura
de uma partida prematura... 

Correm os meus dedos longos
Em versos tristes que invento

dedos longos, 
dedos curtos, 
dedos médios, 
dedos todos...

versos, textos, palavras e letras...
letras, palavras, textos e versos...
todos tristes, toscos e tristes, tocos tristes...

invento?

[in]vento, pra dentro do vento que sopra por onde quer, não vejo de onde vem, não o vejo quando chega, nem tampouco quando se vai...

no vento e com versos tristes derramo minha alma que já não escorre, mas goteja lentamente nas lágrimas carregadas de tristeza com lampejos de felicidade, por isso parecem brilhar... 

Nem aquilo a que me entrego
Já me dá contentamento

nem isto nem aquilo...

na distração pareço absorto, transpareço superação, passos lentos, passos que enganam, passos nisto e naquilo...

gasto tempo lento que rápido passa e já não contem as dores e o vazio que transpassam como o vento arrastando fora o contentamento, esvaindo-se...

con-tente-[e]-mente
con-tente-[a]-mente
com saudade tento seguir
com a mente que mente e não resiste
ri... e, depois chora!

Pode ser até manhã
Cedo, claro, feito o dia

manhã de sol, 
manhã nublada, 
manhã de chuva, 
manhã de frio, 
manhã ou amanhã...

nasce o dia e morre a noite,
chega a noite e parte o dia,
parte ao dia,
parte que é parte de mim,
parte pra sempre num dia há 2 anos...

cedo, claro, feito no dia em que partiu...

Mas nada do que me dizem
Me faz sentir alegria

nada e tudo
nada e tudo me faz
nada sente nem tudo faz
apenas parece ser

sorrir e rir parecem
sorrir e rir aparecem
ir e vir também parecem
ir sem vir... nem voltar!

nasce e não morre um buraco que é vazio
nasce e não morre a falta que aparece
nasce e não morre a tristeza mesmo entremeada... ... com lampejos de alegria

sorrir e rir parecem
serenidade e controle aparentam
mas, não faz sentir alegria
nada do que dizem produz o que se foi pra sempre... 

Eu só queria ter do mato
Um gosto de framboesa

gosto de saudades
mato e não morro
gosto de saudades
não mato e morro

framboesa, groselha, mirtilo
morango, acerola, amora
qualquer gosto
todo gosto, agosto, ao gosto, sem gosto...

felicidade é também fel-ic(soluço)-idade

do mato, pro mato
no mato sem cachorro
um pouco sozinho!


Pra correr entre os canteiros
E esconder minha tristeza

ela baila por todo lado
ela brinca em-todo-lado
ela corre entre os canteiros
ela não deixa esconder...

ela planta lágrimas
ela desnuda
ela desbunda
ela não deixa esconder...


E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida

dizem deixa disso
dizem há moços
dizem há mulher
dizem haverá equilíbrio
dizem entre bens e males, sobra bens
dizem segue a vida

dizem deixa disso
dizem...


Pois senão chega a morte
Ou coisa parecida
E nos arrasta moço
Sem ter visto a vida

eu vi a vida
eu vi a morte
não há coisa parecida que arrebente mais

eu vi a vida
eu vi a morte
e ela nos arrasta moço ou velho
e ela nos arrasta mesmo vendo a vida


É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho

é o Vazio...
é a proa onde falta alguém!


É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol

é o Vazio na voz de um amigo...
é o pesar
é o deleite
é o Vento no Mar!


São as águas de março fechando o verão
É promessa de vida em nosso coração

às vezes as águas de março chegam em junho
atrasadas?
adiantadas... muito adiantadas e prematuras.

os dias são menos claros
as noites são menos escuras
pois, no menos há vida em nosso vazio coração!

menos felicidade não significa infelicidade
até porque [in]felicidade é ir pra dentro dela
e nela, nessa felicidade... também é fel-ic-idade

assim é o Caminho
na manjedoura apartado
na mesa amparado
na cruz arrebentado

e, depois... esperançado!
mas, só depois...

por ora... [in]certezas!


quarta-feira, 1 de abril de 2015

Certeza do Endereço...
[in]certeza do Tempo

No caminho, ouvimos a música de Nando Reis, interpretada pelo Cidade Negra , Onde Você Mora? Música que mexe muito nas nossas emoções, faz uma reviravolta, nos traz à memória:
... não a dúvida de Onde Ela Mora, 
... mas a [in]certeza do tempo que nos resta de viagem até nos encontrarmos novamente.

Lendo um pouco mais descobri que essa música foi escrita por Nando Reis e Marisa Monte. Ela gostava muito de ambos, sei que a sensibilidade deles, o jeito leve e suave de trazer através das melodias e letras as mais profundas emoções, que mexiam tanto com ela... também mexem muito conosco.

Lembro-me com saudade da nossa viagem à Europa para comemorar seus 15 anos. Estávamos no aeroporto e nos encontramos com o Nando Reis, que gentilmente autografou e deixou um recadinho para cada um de nossos filhos em seus Diários de Viagem. 

Foi pura emoção estar tão perto de alguém que nos toca tanto a alma. Vou me lembrando desses detalhes... e, eu não os quero perder jamais. 
Dinkelsbuehl - expressando seu amor
Ah! Se eu pudesse voltar no tempo, começar tudo de novo, será que seguiria pelos mesmos caminhos, será que trilharia os mesmos passos, apenas gastando mais tempo com meus filhos desde pequenininhos... 

Talvez dessa vez teria decidido construir um veleiro enquanto eles eram pequenininhos, talvez até mesmo antes deles chegarem... e, os teria levado pelo mundo afora.

Olhar para dentro, espelhar minha alma na melodia e na letra dessa música, perceber que “eu nunca mais terei amor assim, nunca mais verei um amor que não se mede, amor que não se pede, amor que não se repete”... 

Amor único!
Assim foi o seu amor por mim.

Ainda guardo aquela camiseta que você me presenteou expressando o seu amor por mim. Nesse dia dos pais, vesti o seu amor, bem coladinho no corpo e orgulhoso da filha que o Pai havia me dado.

Ainda guardo aquela camiseta bem enroladinha na minha gaveta de camisetas... sem dúvida a melhor de todas as camisetas.

Ainda guardo na memória a expressão de alegria no seu rosto, orgulhosa do resultado de tantas horas dedicadas a uma ideia... pensando, desenhando e depois pintando o seu amor por mim. 
a love t-shirt - an expression of your love for me
Jamais me esquecerei disso, pena que a maldade do tempo a tem amarelado, pena que a maldade do tempo e o desgaste do uso aos poucos a estão destruindo, com pequenos buraquinhos, a gola desbeiçada e a cor de branco sujo... 

É uma relíquia que guardo na gaveta – já nem tenho usado-a pra preservar essa relíquia. 

Sim, 
... é uma relíquia que guardo no coração, 
... é uma relíquia pregada nas paredes do Vazio do meu coração que tem cara, que tem cheiro, que tem nome.

Você foi embora mesmo querendo ficar, agora eu sei... sempre soube que você balançava suavemente entre duas casas e as saudades que você sempre alimentou da Casa do Pai conduziram seus passos, ajudaram na sua travessia, amparando a sua angústia e acalentando a sua alma, quando decidiu ir para nunca mais voltar.

Hoje na sua varanda resta apenas o balanço vazio de uma rede vazia, pois sua morada é em outra casa...

Você foi embora... 
amor que não se mede, 
amor que não se pede, 
amor que não se repete... 
jamais!

Duas décadas jorrando o seu amor a cada um de nós da sua família, duas décadas vividas intensamente no nosso caminho, duas décadas que sacramentaram e garantiram a certeza de que estaremos juntos novamente... 

E, aos poucos vou rabiscando um quadro na minha alma, ainda um rascunho cheio de rabiscos a lápis, borrões quando algo sai das linhas imaginárias. 

Estou desenhando um quadro, um sonho, uma janela no tempo, uma realidade. Ele vai aparecendo à medida que meus passos seguem.

Nesse quadro vejo ao longe uma singela casinha camponesa, flores na janela, muitas borboletas voando ao seu redor, e, mesmo antes de bater com meus dedos na porta da frente, percebo que a porta está entreaberta. 

Um raio de luz me traz essa certeza e sombras entrecortadas me garantem que alguém se aproxima da fresta.

Vejo você aparecendo nessa fresta entreaberta, escancarando a porta, deixando que todas as cores e aromas fluam num movimento borboletal. 


Vejo você a passos largos, 
que mais parecem asas voando. 

Vejo você com seus belos e longos cabelos esvoaçantes, suas largas saias com flores miudinhas pintadas à mão, camisetinha regata colada e pés no chão... sempre soube que você abriria a porta quando a tocasse. 
livre... solta... borboletal
Mas, é muito mais que isso... 

Infelizmente meu quadro não está pronto e ainda não vejo algo que se segue à velocidade de todo o tempo que teremos pela frente, você está correndo em minha direção, me dá um beijo que jamais esquecerei e fica pendurada ao meu pescoço como sempre quis... por um tempo que parece não ter mais fim.

Enquanto esse quadro não fica pronto. 
Enquanto as pontas dos meus lápis se quebram. Enquanto minhas mãos ainda não conseguem transferir para o papel todas as imagens que vejo no quadro. 
Enquanto esse quadro não se materializa.
Enquanto esse quadro não transcende completamente..., 


darei meu próximo passo
na direção de um tempo que se encurta
com muitas certezas
com a certeza que é essa a Casa 
onde você mora 
com a certeza que a esperança me norteia
e firma meus passos... 


Sigo com 
a mais dolorosa das [in]certezas:
... quando será que a porta se abrirá? 
... quando esse quadro trará todas as ideias?
... quando todos os traços estarão desenhados?
... quando todas as nuanças do Artista?
... quando?


Nando Reis 

Amor igual ao seu
Eu nunca mais terei
Amor que eu nunca vi igual
E que eu nunca mais verei

Amor que não se mede
Amor que não se pede
Não se repete

Amor que não se mede
Amor que não se pede
Não se repete

Amor igual ao seu
Eu nunca mais terei
Amor que eu nunca vi igual
E que eu nunca mais verei

Amor que não se mede
Amor que não se pede
Não se repete

Amor que não se mede
Amor que não se pede
Não se repete

Cê vai chegar em casa
Eu quero abrir a porta
Da onde você mora
Aonde você foi morar
Aonde foi?

Não quero estar de fora
Aonde está você?
Eu tive que ir embora
Mesmo querendo ficar
Agora eu sei!

Eu sei que eu fui embora
E agora eu quero você
De volta pra mim!

Amor igual ao seu
Eu nunca mais terei
Amor que eu nunca vi igual
E que eu nunca mais verei

Amor que não se mede
Amor que não se pede
Não se repete
Amor!

Amor que não se mede
Amor que não se pede
Não se repete
Oh não!

Cê vai chegar em casa
Eu quero abrir a porta
Da onde você mora
Aonde você foi morar
Aonde foi?

Não quero estar de fora
Aonde está você?
Eu tive que ir embora
Mesmo querendo ficar
Agora eu sei!

Eu sei que eu fui embora
E agora eu quero você
De volta pra mim!

Amor igual ao seu
Eu nunca mais terei
Amor que eu nunca vi igual
E que eu nunca mais
Nunca mais
Nunca mais verei


terça-feira, 31 de março de 2015

Vem me Socorrer...
quando o Vazio pesa mais


Há dias que o Vazio de Uma Parte pesa mais que o Cheio de Todas as Outras Partes

Nesses dias meus ouvidos ficam mais atentos às vozes pelo Caminho. Recolho meus pensamentos, deixo meus sentimentos à solta e fixo meus olhos no [in]esperado... e Ele vem!

Os olhares, os passos rápidos, as aglomerações durante o almoço, as mensagens na caixa postal, os telefonemas, o ir de muitos e o vir de tantos outros... ah! o rádio, sim o rádio (em suas frequências modulares) com suas melodias que penetram fundo na alma da gente.


É bom demais saber que o Eterno não vem e vai, Ele permanece... [a mensagem Isaías 27-31] 

Ele simplesmente permanece. E, com isso paira na brisa o Vento Eterno que vai nos garantindo essa verdade nua e crua.

Verdade que adentra o Vazio, passeia no Vazio, toca o Vazio, torna-se o Vazio e encarna-se... e, vai mastreando as ações do Acaso que surge na ordem certa, na melhor ordem, na ordem que nossa alma precisa.

Hoje foi assim...

Na resposta a uma mensagem no WhatsApp de um amigo atento às nuances que a dor nos traz, um despejar sem fim das certezas que mais se assemelham a incertezas... é mesmo o [in] nas certezas.


"meus compartilhamentos visam apenas extravasar emoções e sentimentos diante da dor que veio pra ficar até que eu também cruze o rio e me encontre com o Pai... é um período em que a morte entrou na minha vida e fez morada... e, não há solução, esse é o tamanho do vazio que tem cara, tem cheiro e tem nome... aprendi que a fé tem espaço para as incertezas, as dúvidas e o acolhimento do mistério."

Na música Vazio de Gilberto Alves Leal que não me saía da cabeça e da alma, dando voltas com suas palavras acolhidas, escolhidas através de um caminho de dor e ordenhadas de maneira singela, suave como uma bailarina nos seus passos mágicos tocando de leve com a ponta dos pés o chão do meu Vazio.


bailarina para sempre
rabiscos da Gabí que ficaram para sempre

Deixar o vento tocar
Ver o veleiro no mar
Templo nublado
O vazio que existe
Alegria num dia comum

Ver o vazio olhar
Deixar-se esvaziar
Desaguar límpido
No mar mais lívido

Viver ainda é amar
uma rede vazia
voar no vazio
um ninho vazio
uma cruz vazia!

uma flor que voa!
o jardim da vida

é pesar e deleite.

E, por fim...

Na música Vem me Socorrer de Marcos de Oliveira Almeida do Grupo Palavra Antiga.


Não tenho um tom
Não tenho palavras
Não tenho acorde que
Me socorra agora
Tudo foi embora
Só tenho você

Havia um silêncio
Que mostrou os meus vícios
Me agarro contigo
Vem me socorra agora
Tudo foi embora
Só tenho você amor
Agora

E essa não é mais uma canção de amor
Não, não, não

Eu canto pra ti
Sei onde estou
Olhando pra mim posso saber
Que nada sou

Eu grito pra ti oh Deus
Vem me socorrer
Olhando pra mim posso saber

Que nada posso fazer.

E acolhendo tudo isso, volto ao início deste texto e para [dentro] das minhas [in]certezas e dou meu próximo passo na certeza de que há um Vazio que não será preenchido até que eu cruze o rio. 



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