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segunda-feira, 22 de setembro de 2025

 


Peregrino em Terra Estranha

O peregrino não começa sua jornada com respostas. Ele começa com um peso no peito e um mapa antigo nas mãos. O mapa fala de uma cidade luminosa, de um Deus que guarda passos, que intervém com braço forte. Ele fala de Cânticos dos Degraus, salmos entoados numa subida alegre para Sião. E assim o peregrino parte, esperando ouvir o ruído das fundações do mundo se rearrumando a seu favor.

Mas a estrada é poeirenta, é longa.

A cada passo seus pensamentos e sentimentos vivenciam os paradoxos da sua caminhada alinhavada pelas suas experiências. Ele logo descobre que a jornada não é um cortejo triunfal, mas uma travessia por paisagens ambíguas. Ele vê os que caem à beira do caminho. Ele mesmo tropeça e sangra. E a pergunta, primeiro sussurrada, depois gritada para o céu silente, é: onde está o Guardião? Onde estava Ele quando o meu irmão sucumbiu? O mapa prometia proteção, mas a estrada exibe, crua e descaradamente, a aleatoriedade da fome, da sede e da dor.

Sua primeira ideia preconcebida se desfaz como areia entre os dedos: a de que fé é um contrato de imunidade. O peregrino aprende, na prática, que a promessa não é de um caminho fácil, mas de uma Presença no caminho difícil. O livramento não é a ausência da tempestade, mas a companhia inesperada dentro dela. O Deus dos Salmos não é um fazedor de milagres sob demanda; é o sustentador do fôlego que sustenta a caminhada; milagres não estão nessa equação.

E o caminhar vai se tornando a cada passo a verdadeira caminhada e vai se tornando realidade na humilhação de admitir que não entendemos quase nada. Que nossas doutrinas são pequenas jaulas onde tentamos prender um Mistério infinito.

As vozes da comunidade do peregrino ainda ecoam as suas narrativas "Deus nos trouxe até aqui!". Não deve haver dúvidas, é uma história de sobrevivência, de resgate. Mas seus olhos, ainda mais aguçados e perplexos, enxergam os vestígios individuais apagados pela narrativa coletiva. Ele pergunta: e os que não sobreviveram? Suas vidas foram menos importantes? Suas mortes foram apenas notas de rodapé num plano maior?

Uma segunda ideia misturada ao seu suor e cansaço estampada à sua frente reaparece e se agiganta como se sua caminhada não tivesse fim. Seria Deus o arquiteto de cada desgraça, traçando minuciosamente cada tragédia com um propósito inescrutável. Que divindade terrível seria essa? Talvez, propõe o cansaço sábio do peregrino, o mundo simplesmente funcione — com suas leis naturais, suas escolhas humanas livres e consequentes, sua beleza e seu caos entrelaçados. E talvez a ação de Deus não seja violar esse sistema criado e sustentado por Ele, mas em Seu Eterno poder, reduzir-se e habitar as entranhas desse mundo que simplesmente funciona.

Ele não é o autor do acaso, mas o tecelão que, com paciência infinita, pega os fios quebrados do acaso e os entrelaça na certeza de que sua redenção já está garantida, apaziguada e sustentada por Ele mesmo. Sua ação é mais sutil, mais profunda: uma persuasão amorosa, um sussurro à consciência, um convite à compaixão que surge no meio do horror. Ele não está no palco, comandando o drama. Está na plateia, chorando com os que choram. E, misteriosamente, está também nos bastidores, trabalhando para que a história siga os passos de seus peregrinos.

Isso nos leva ao abismo final, o paradoxo supremo: o que significa essa relação entre a Criatura, frágil e efêmera, e o Eterno, inatingível em Sua infinitude? Como pode o finito conter o Infinito? Como pode um caminhante construir sua caminhada percebendo o Caminho na esperança do descanso reparador ao final do dia?

Não surgem respostas, apenas intuição, não há um livro de respostas. É o silêncio que garante às perguntas um desvanecer. Não há um despertar para o entender, mas se abre um Caminho para experimentar.

É então que ele percebe.

Não é um dogma. Não é uma prova. Não é uma resposta cognitiva.

Uma fragrância! Sim, é uma fragrância!

Um aroma misterioso e inconfundível que adentra a alma não por suas portas racionais, mas por frestas que ele mesmo desconhecia. É o perfume do Mistério. Um perfume que faz seu suor e seu cansaço desaparecerem. Um aroma capaz de refrigerar e confortar seu corpo exausto, agora renovado. Sem responder a nenhuma pergunta em sua jornada, mas dissolvendo a urgência e o poder de escravizar das suas perguntas. Uma percepção que não se traduz em palavras, mas se traduz em uma paz inexplicável no meio do caos, em uma resiliência que não vem de si mesmo, em uma compaixão que supera sua lógica, daquele que decidiu adentrar-se nas entranhas de Sua Criação.

A caminhada espiritual, o peregrino descobre, não é sobre chegar a Sião com todas as respostas certas. É sobre se perder tantas vezes que você aprende a confiar não no mapa, mas no próprio ato de caminhar. É sobre trocar a fé das certezas pela confiança na Presença. É sobre parar de buscar um Deus que impeça a dor e começar a reconhecer o Deus que sofre dentro dela.

A jornada termina onde começou: no mistérioMas, agora não é mais um mistério assustador.

É um relacionamento.

E o peregrino, agora sem mapas, mas com olhos mais claros, segue seu caminho, constrói sua caminhada a cada passo. Não porque saiba para onde vai, mas porque aprendeu a reconhecer, no aroma do mundo, a fragrância do Sagrado.

memórias de um caminhante em 22-set-2025

reflexões nos Salmos 120 a 134

sábado, 4 de abril de 2015

Boa Páscoa...
triste e feliz!

Tenham todos uma Boa Páscoa...
Boa é mais que Feliz, é também Triste.
Pois a Páscoa é assim: Triste e Feliz.
Que reflete a nossa própria vida: Feliz e Triste.


desenho da Gabí: misterioso e enigmático

Seria uma contemplação da Páscoa?

a cruz no centro do olhar, 
triste a lágrima desesperançada rolando, separação: o sol atrás da cruz, 
profetizando a esperança?...
perdido nesse olhar,
perdido fitando os Olhos do Pai!

Hoje faz 22 meses que a Gabí decidiu ir mais cedo para a Casa do Pai, desde então tenho caminhado na certeza que Tristeza e Alegria estarão presentes todos os dias da minha vida. 

A Tristeza e o Desamparo nos 3 dias entre Sua Morte e Sua Ressurreição pode durar muito tempo, pois o tempo é um lapso da Eternidade, há alguém que já disse que um dia é também mil anos...

Desde que a Morte entrou na minha vida há 22 meses atrás:


22 meses
2+2=4
04/06 (dia em que se foi)
04/04 (nesta Páscoa)
quantos 4s já vivi...
quantos 4s mais eu viverei? 

... quando parte de mim partiu, deixando o Vazio presente, quando gritei desesperançado porque o Eterno havia nos desamparado, desde então perdi o controle de tudo, deixei-me perder em Seu Olhar, entendi que meu primeiro dia havia chegado e que meu terceiro dia não tinha data nem hora marcada para chegar, entendi que a esperança também brota na própria desesperança, quando definitivamente estamos...
“lost in your eyes”. 

Entendi que do lado de cá do rio, tristeza e alegria nos encontram ao acaso até o ocaso. 

Sim, é fato que o Eterno permanece, que Ele caminha conosco nos Vales da Sombra e da Morte e também nos Pastos Verdejantes com Águas Tranquilas. 

Mas, neste lapso de tempo da Eternidade, pensar que o Eterno nos traz, nos envia, nos massacra com a Maldade... é querer ser Deus e esquecer-se que Ele mesmo nos gerou e nos agraciou com Seu Amor e Sua Graça.

Vale lembrar (esse vídeo marcou minha caminhada com o Eterno em 2008) que a frase misteriosa e hoje mais real do que já pude entender expressa pelo Brennan Manning: 
“você creu que eu o amei, que eu o desejei, que eu lhe esperei dia após dia, que eu ansiava por ouvir o som de sua voz?” 

E, complementa: 
“ninguém como um crente pode mensurar a profundidade e a intensidade do Amor de Deus.” 

Nesta Páscoa eu quero perceber a realidade dessa frase que o Brennan termina seu pequeno discurso dizendo que Deus tem algo para mim: 
“Eu tenho uma palavra para você: Eu conheço toda a sua história de vida, todos os esqueletos em seu armário, todos os momentos de pecado, de vergonha, de desonestidade e amor degradante que escurecem o seu passado. Eu sei que agora mesmo você está com uma fé superficial, uma vida de oração frívola e discipulado inconsistente. E minha palavra para você é esta: Desafio-lhe a confiar que Eu lhe amo do jeito que você é. E não do jeito que você deveria ser. Porque você nunca será como deveria ser.”

Apaixonar-se ao olhar nos olhos, ao perceber que os olhos nos abre o Caminho para a Eternidade, entregar-me totalmente já não mais preocupado em encontrar o Caminho, mas na certeza de ser encontrado, adentrar-me pelos olhos: 
“And if I can't find my way, if salvation seems worlds away. Oh, I'll be found when I am lost in your eyes”.


Olhos, mistério da Alma.
Gabí deixou suas marcas... seu olho azul
janela da sua alma: libertou-se adentrando-se na Casa do Pai
vivenciando a Páscoa!

Amanhã, quando o dia nascer... 
E, [re]nascer a esperança do [re]encontro:

Tenham todos uma Boa Páscoa...
Boa é mais que Feliz, é também Triste.

Pois a Páscoa é assim: Triste e Feliz.
Pois reflete a nossa própria vida: Feliz e Triste.



Debbie Gibson 

I get lost in your eyes
And I feel my spirits rise
And soar like the wind
Is it love that I am in?

I get weak in a glance
Isn't this what's called romance?
And now I know
'Cause when I'm lost I can't let go

I don't mind not knowing what I'm headed for
You can take me to the skies
It's like being lost in heaven
When I'm lost in your eyes

I just fell, don't know why
Something's there we can't deny
And when I first knew
Was when I first looked at you

And if I can't find my way
If salvation seems worlds away
Oh, I'll be found
When I am lost in your eyes


(*)
... ao longo dessa Páscoa parafraseei essa música à minha relação com o Eterno: 

"se eu não conseguir encontrar meu caminho, se a salvação parecer a mundos de distância... oh! eu sei que eu serei encontrado quando estiver perdido em seus olhos!!!"

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