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sexta-feira, 26 de setembro de 2025


Peregrino e a Sakura


O peregrino vai construindo seu caminho a cada novo passo, às vezes seu caminho parece emaranhar-se, outras vezes até parece pavimentado por profissionais. No entanto, ele vai se percebendo no presente sem deixar de observar suas idas, vindas, reparos e ajustes. Há três anos, esse homem parou à sombra de uma jovem Sakura que plantara e escreveu sobre o Eterno.

Um convite ao próximo passo

Naquele tempo, acreditava ter entendido algo profundo: que o presente era uma janela através da qual o infinito invadia o finito. Era uma visão cheia de esperança, que o convidava ao próximo passo. A Sakura era um símbolo de beleza presente e futuro.

Mas o caminho de um peregrino é feito de paisagens que mudam e de mochilas que se enchem com novas experiências. O tempo passou. A Sakura cresceu, tornou-se forte e frondosa, a ponto de suas raízes e sombra ameaçarem o talude que a sustenta. A beleza plantada como um presente para o futuro tornou-se um dilema para em um outro presente. E agora, o homem se vê considerando uma poda radical. Um ato de cuidado que parece contradizer o sonho de outrora.

Olhar para a árvore é, para ele, olhar para o peregrino que foi, num presente distante a muitos passos do atual presente. Percebe que as esperanças daquele homem que plantou com fé não se perderam; transformaram-se. Materializaram-se de tal forma que agora exigem uma nova coragem.

A poda não é o fim, mas uma garantia de equilíbrio. É o próximo passo necessário, tomado com a sabedoria que apenas a somatória de tantos passos anteriores poderiam oferecer. Neste presente, um caminho maior colecionando as experiências que não transbordam em sua mochila que parece ter um interior infindável.

E assim, sentado à sombra que é ainda tão densa, mas prestes a permitir que o sol transpasse seus galhos e chegue saudável para alimentar o gramado quase extinto no talude, sua reflexão vai se aprofundando. A poda necessária da Sakura ecoa uma transformação maior em sua própria vida. O mundo ao seu redor ficou mais espaçoso, sua mochila a cada passo mais cheia de vivências e aparentando cada vez mais leve, como um finito adensado pelo infinito. 

Vozes que geraram esse peregrino, que o ensinaram a caminhar, a dar seus primeiros passos com o Eterno e as vozes que ele mesmo gerou, as ensinando a firmar suas pegadas na construção do seu próprio caminho, ambas já não ressoam fisicamente ao seu redor. 

Sua alma estruturada e construída ao longo do caminho, construída com esse amor, tem agora salas grandes, vastas e silenciosas com mobília minimalista.

Se antes imaginava que o infinito se mostrava na plenitude, agora compreende que ele sussurra mais alto no vazio. Infinito que adensa o finito paramentando espaços repletos e vazios, num ir e vir dançando nas nuances das paisagens contempladas ao longo desse caminho. Essas ausências não são buracos, mas os grandes salões de sua catedral interior. É nesse silêncio que o eco do eterno se torna audível.

O infinito adensado no seu finito se move em duas direções.

O infinito, descobre ele, não tem apenas a direção do futuro; tem também a direção do passado. Afinal, é infinito! E, olhar para o "último passo" é perceber que todas as pegadas ainda o sustentam.

Ser peregrino, para aquele homem, deixou de ser apenas uma marcha em direção a um santuário distante. Tornou-se a compreensão de que o próprio caminhar é o santuário. Cada passo é um presente, um "agora" que contém todo o seu passado e todo o seu futuro. A Sakura depois de podada continuará inteiramente viva em sua memória, assim como aqueles que partiram. A grama que espera ver crescer será uma nova forma de beleza, nascida da coragem de um cuidado difícil.

O próximo passo será dado. A estrada vai se construindo. E ele segue agora com uma verdade mais tranquila, vai se apaziguando: a janela do eterno não está apenas à sua frente. Ela o envolve por completo. E o que parecia vazio era, na verdade, a dimensão infinita do amor que carrega consigo, a paisagem sempre nova da mesma e eterna jornada de ser. 

Jamais deixará de ser um peregrino!


memórias de um caminhante em 26-set-2025



sábado, 29 de outubro de 2016

Há conselhos...

... que não deveriam ser seguidos



... um memorial, um templo, uma janela no Kairós

Era uma tarde de Segunda-Feira no último mês de um Outono há quase 4 anos atrás, o sol brilhava e seguíamos no nosso Defender pra São Paulo.

Vez ou outra conversávamos um pouco. Comeu um pedaço de Chocolate e quis repartir o restante comigo, mas recusei e agradeci. Decidiu então levar para repartir com suas amigas de República.

Vez ou outra uma ligação para apoiar alguém com algum problema na entrega de serviços em algum de nossos clientes.


Vez ou outra nos olhávamos...

Seguíamos devagar, pois já tive pressa e hoje ando devagar... é verdade que para andar devagar coloquei a mim mesmo o limite de velocidade do Defender, que anda devagar.

Chegamos à USP, me beijou, desejou boa semana, desceu do jipe e fechou a porta. 

A chamei de volta, ela deu dois passos para trás e através da janela, sorrimos um ao outro, nos olhamos nos olhos e eu disse: 
"Filha, não se preocupe com maus pensamentos, mantenha-se focada no que precisa fazer e amanhã à noite nos veremos."

Para mim, teria sido mais um conselho de um pai que sabe que sua filha está caminhando com dificuldade por um período difícil... onde os sinais depressivos chegaram há pouco mais de uma semana.

Diante desses prenúncios sua mãe e eu já havíamos organizados as agendas necessárias para apoia-la:

  • pela manhã esteve no Ortomolecular
  • na 3a.feira iria à Psicóloga em São Paulo
  • e, na 4a.feira ao Psiquiatra em Campinas

Deixei-a na calçada gramada da USP próximo ao Instituto de Biologia... deixando para mim um último sorriso singelo que duraria por toda a minha vida.


Meu coração ainda pesado sabia, sabia...

"... alguma coisa estava errada, meu coração já sabia e eu não via claramente
(*) frase adaptada da Canção On The Level de Leonard Cohen


E, imaginei

... imaginei que se ela estivesse focada sabendo que a estávamos apoiando e que juntos estávamos suportando as suas dificuldades, logo ela estaria em casa

... imaginei que se ela estivesse focada no que precisava fazer, deixaria as distrações, maus pensamentos e dores da alma de lado

... imaginei que se ela estivesse focada e se lembrasse de suas certezas logo estaria em casa, acolhida e cuidada

... imaginei que se ela estivesse focada, sentido-se amada e acolhida, isso seria suficiente para suportar pouco mais de 24 horas, pois logo estaria em casa 

... imaginei...


Mas, não imaginei...

... não imaginei que estávamos falando de coisas diferentes, nossos pensamentos voavam por caminhos diferentes

... não imaginei que ela pensava em seguir por atalhos por não suportar mais a possibilidade de sua mente seguir por caminhos que ela não queria

... não imaginei que seu olhar doce e singelo nos meus olhos teria sido a sua última contemplação de suas origens

... não imaginei que ela pensava nas suas origens mais remotas, de onde ela veio e estava ansiosa para se jogar nos braços do Eterno

... não imaginei...

 

E,
o Eterno a acolheu para sempre!

Menos de 24 horas do último Conselho de um pai... ela decidiu seguir esse Conselho, ela se focou no que estava pensando, se focou no que tinha pra fazer, se focou na busca do seu definitivo Retorno à Casa do Pai, pois ela já estava preparada para... se jogar nos braços do Eterno!

"Minha necessidade é clara, estou morrendo para tê-lo próximo a mim... Senhor, eu não me pertenço mais e se estiver esperando por mim eu não tenho medo de morrer!"
"Eu estou preparada para ir, para separar meu corpo da minha alma, o Senhor sabe!... Senhor, eu não me pertenço mais e se estiver esperando por mim eu não tenho medo de morrer!" 

(*) tradução livre de um trecho da Canção A Prayer de Madeleine Peyroux


... meus pensamentos e minhas lembranças enquanto caminhava sozinho ouvindo Leonard Cohen hoje pela manhã próximo de casa


quinta-feira, 4 de junho de 2015

Quando penso em você...
e na sua partida


vazio
há tantos vazios
mas, há vazio que não se preenche

Fagner

Quando penso em você
Fecho os olhos de saudade

você está nos meus pensamentos todo dia, em tudo que vejo ou que vivencio, nos momentos vividos, nas lembranças que brotam das minhas entranhas...

na expressão carinhosa da sua mãe, nos meninos afoitos em seus afazeres, com seus amores e que correm entre os canteiros da vida...

mas, hoje o aperto no peito é muito maior, a dor parece que vai me arrebentar por dentro, parece que o Vazio cresce e inunda completamente minha vida, minha alma, meu coração, meu tudo...

acordei pensando em você, olhos fechados e você nas imagens que correm pelos meus pensamentos, olhos abertos e falta você, falta você, falta você...

há 2 anos você partiu para sempre jogando-se no colo do Eterno, e Ele a acolheu...


Tenho tido muita coisa
Menos a felicidade

desde que me entendo por gente, felicidade era algo pra se buscar, algo que valia a pena correr riscos, algo que valia a pena permanecer no Caminho...

felicidade seria um estado de alma, seria a contemplação do belo, seria a introjeção da feliz idade dentro de nós mesmos, seria, seria...

lampejos de felicidade é o mesmo que menos felicidade, é saber que no meio desses lampejos e também por serem lampejos de felicidade...

há a ausência da total felicidade, pois no meio, entremeado, engastado e engasgado está a tristeza que advém...

de uma partida madura
de uma partida pré-madura
de uma partida prematura... 

Correm os meus dedos longos
Em versos tristes que invento

dedos longos, 
dedos curtos, 
dedos médios, 
dedos todos...

versos, textos, palavras e letras...
letras, palavras, textos e versos...
todos tristes, toscos e tristes, tocos tristes...

invento?

[in]vento, pra dentro do vento que sopra por onde quer, não vejo de onde vem, não o vejo quando chega, nem tampouco quando se vai...

no vento e com versos tristes derramo minha alma que já não escorre, mas goteja lentamente nas lágrimas carregadas de tristeza com lampejos de felicidade, por isso parecem brilhar... 

Nem aquilo a que me entrego
Já me dá contentamento

nem isto nem aquilo...

na distração pareço absorto, transpareço superação, passos lentos, passos que enganam, passos nisto e naquilo...

gasto tempo lento que rápido passa e já não contem as dores e o vazio que transpassam como o vento arrastando fora o contentamento, esvaindo-se...

con-tente-[e]-mente
con-tente-[a]-mente
com saudade tento seguir
com a mente que mente e não resiste
ri... e, depois chora!

Pode ser até manhã
Cedo, claro, feito o dia

manhã de sol, 
manhã nublada, 
manhã de chuva, 
manhã de frio, 
manhã ou amanhã...

nasce o dia e morre a noite,
chega a noite e parte o dia,
parte ao dia,
parte que é parte de mim,
parte pra sempre num dia há 2 anos...

cedo, claro, feito no dia em que partiu...

Mas nada do que me dizem
Me faz sentir alegria

nada e tudo
nada e tudo me faz
nada sente nem tudo faz
apenas parece ser

sorrir e rir parecem
sorrir e rir aparecem
ir e vir também parecem
ir sem vir... nem voltar!

nasce e não morre um buraco que é vazio
nasce e não morre a falta que aparece
nasce e não morre a tristeza mesmo entremeada... ... com lampejos de alegria

sorrir e rir parecem
serenidade e controle aparentam
mas, não faz sentir alegria
nada do que dizem produz o que se foi pra sempre... 

Eu só queria ter do mato
Um gosto de framboesa

gosto de saudades
mato e não morro
gosto de saudades
não mato e morro

framboesa, groselha, mirtilo
morango, acerola, amora
qualquer gosto
todo gosto, agosto, ao gosto, sem gosto...

felicidade é também fel-ic(soluço)-idade

do mato, pro mato
no mato sem cachorro
um pouco sozinho!


Pra correr entre os canteiros
E esconder minha tristeza

ela baila por todo lado
ela brinca em-todo-lado
ela corre entre os canteiros
ela não deixa esconder...

ela planta lágrimas
ela desnuda
ela desbunda
ela não deixa esconder...


E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida

dizem deixa disso
dizem há moços
dizem há mulher
dizem haverá equilíbrio
dizem entre bens e males, sobra bens
dizem segue a vida

dizem deixa disso
dizem...


Pois senão chega a morte
Ou coisa parecida
E nos arrasta moço
Sem ter visto a vida

eu vi a vida
eu vi a morte
não há coisa parecida que arrebente mais

eu vi a vida
eu vi a morte
e ela nos arrasta moço ou velho
e ela nos arrasta mesmo vendo a vida


É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho

é o Vazio...
é a proa onde falta alguém!


É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol

é o Vazio na voz de um amigo...
é o pesar
é o deleite
é o Vento no Mar!


São as águas de março fechando o verão
É promessa de vida em nosso coração

às vezes as águas de março chegam em junho
atrasadas?
adiantadas... muito adiantadas e prematuras.

os dias são menos claros
as noites são menos escuras
pois, no menos há vida em nosso vazio coração!

menos felicidade não significa infelicidade
até porque [in]felicidade é ir pra dentro dela
e nela, nessa felicidade... também é fel-ic-idade

assim é o Caminho
na manjedoura apartado
na mesa amparado
na cruz arrebentado

e, depois... esperançado!
mas, só depois...

por ora... [in]certezas!


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