Colecionador de Caminhos
O Colecionador de Caminhos não colecionava objetos, mas o eco de passos que tropeçaram. Suas prateleiras não eram de madeira, mas de tempo solidificado, onde repousavam fragmentos de alma dilacerada — almas fragmentadas pelas perdas prematuras, o avesso do parto, quando filhos seguem antes dos pais. Sua coleção era um arquivo de lutos e de reconstruções começadas no escuro.
A saudade é arrumar o quarto
Da filha que já morreu” - Pedaço de mim
Ao completar setenta voltas ao sol, ele não se desfez de Canecas, mas libertou as narrativas que elas guardavam. Sempre atento às mensagens colhidas pelo Caminho, deixou que seus amigos se encontrassem com elas, permitindo que novas conversas florescessem. Agiu com a fé silenciosa de que as histórias colecionadas poderiam se entrelaçar com outras jornadas, tecendo uma tapeçaria com o toque do Eterno.
Em sua sabedoria, sabia que aquelas Canecas estavam prontas para acolher novas histórias, guardá-las e mantê-las sagradas. Quanto a ele, continuaria a gravá-las para sempre, não na cerâmica, mas no coração – o único santuário capaz de conter mistérios sem esvaziá-los.
Foi então que os olhares se cruzaram:
Caneca e Peregrino
Ela, de cerâmica simples, estampando uma onda azul e o sol amarelo em círculos com seu convite despretensioso: “Bora pra Cabo Frio”.
Ele, com o mapa da própria vida dobrado e amassado no bolso.
Olhares paralisados, ele se sentiu desafiado, não por uma pessoa, mas pelo peso de uma memória doída, amassada e muito bem guardada. Um Vazio com nome, um peregrino que precisa de abrigo.
Ela, de cerâmica simples, estampando uma onda azul e o sol amarelo em círculos com seu convite despretensioso: “Bora pra Cabo Frio”. Ele, com o mapa da própria vida dobrado e amassado no bolso. Olhares paralisados, ele se sentiu desafiado, não por uma pessoa, mas pelo peso de uma memória doída, amassada e muito bem guardada. Um Vazio com nome em um peregrino que precisa de abrigo.
E do fundo daquela louça, exalou uma memória olfativa: o cheiro de um livro (Presente do Mar) cujas páginas descrevendo as etapas da vida direcionaram sua trajetória, seus sonhos, sua vida. Estampada em sua memória a capa azul. A última etapa não seria o fim, mas o lançar-se: a história do Argonauta, que depois de construir sua casa, gerar seus filhotes e vê-los seguirem rumo ao horizonte imenso, infinito e Eterno, entrega-se à esperança profunda do oceano, construindo seu próprio barco, seu lar final.
A caneca não estava vazia. Carregava outra narrativa entalhada em seu esmalte: a de um casal que viu seus gêmeos partirem para o Eterno num mesmo suspiro: o primeiro e o último, dados antes mesmo do abraço acolhedor dos pais. Um luto-sem-fim, um silêncio que ecoava o seu próprio.
A convivência com o Colecionador de Caminhos a capacitou a acolher outras histórias com a mesma empatia. Ela sempre criava novos espaços. Espaço para a história do Peregrino.
Ele segue resiliente, construindo seu sonho e, assim, reconstruindo a própria vida dilacerada. É o encarnar de uma dor: a dor-revés de um parto há quase treze anos. Mesclando sua esperança no horizonte infinito do mar com a imagem dela seguindo para os braços do Eterno, deixando para trás a certeza de que seu pai daria conta. Seu mundo já não era o mesmo, sua atmosfera era outra.
Era esse o ofício do Colecionador: ser um cartógrafo de almas perdidas. Amigos há mais de três décadas, suas histórias já entrelaçadas e enraizadas. Sempre com empatia, ele acolhia o Vazio enlouquecedor vivenciado pelo Peregrino desde a ida de sua filha. Ele não oferecia rotas de fuga. Apontava, com o dedo quieto da amizade, para o próprio abismo, sussurrando:
“a casa que você constrói agora deve ter quartos para essa ausência, tão presente!”
E o Peregrino construiu. Não uma casa com alicerces na terra, mas um casco sobre as águas. Um veleiro. Sonhado um ano antes da partida, sua construção não foi interrompida pela tragédia; pelo contrário, ao materializar esse sonho da última morada ele foi carinhosamente se reconstruindo, garantindo que seu Vazio teria espaço em cada passo, em cada ação. O barco tornou-se a Arca do Argonauta, destinada a carregar o nome e as cinzas daquela que primeiro se lançou ao infinito.
De volta ao café, no centro da celebração, o Peregrino segurou a caneca. E não houve explosão, mas um silêncio que era puro entendimento. Um silêncio que imprimiu em sua alma a fragrância da ausência presente. A onda azul e o sol amarelo já não eram apenas um símbolo, era o próprio mar inundado de todas as histórias.
O Argonauta das páginas era sua biografia presente-futura. A dor do casal, a sua dor-irmã. O Colecionador, ao estender-lhe aquele pedaço de cerâmica, não cumpria um ritual. Tecia histórias, deixando-se levar pelo Eterno. Abria uma vereda para que a jornada do amigo se entrelaçasse com a jornada já registrada na caneca.
O Peregrino levou a caneca aos lábios. O café era a sua própria vida: amargo, quente, necessário. E a frase Bora pra Cabo Frio já não era um convite geográfico, mas um chamado para dentro do mistério — um convite para permanecer na vida de mistérios, onde as alegrias sempre estarão permeadas com as tristezas e as dores das ausências registradas nos próprios corpos.
Ele olhou para o Colecionador. Sorrisos se estamparam, não eram encontros de respostas, mas a certeza de quem aprendeu a habitar e a transitar no hoje, apesar dos mistérios. Sorrisos que carregam o peso e a leveza da compreensão mútua. Ambos os corpos se encontraram num abraço fraterno de quem sente a dor do outro, uma dor que dói em si mesmo.
A caneca repousou. Sua missão era ser um vaso, um lugar de trânsito para histórias que se reconhecem. Ela unira os fios. Agora, cabia a cada um seguir, o mais leve possível, seu próprio caminho para o mar — não por saber a direção, mas por ter aprendido, no aroma salgado do mundo, a fragrância do Sagrado.
Bora pra Cabo Frio!
memórias de um caminhante em 20-out-2025
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