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segunda-feira, 20 de outubro de 2025


 

Colecionador de Caminhos


O Colecionador de Caminhos não colecionava objetos, mas o eco de passos que tropeçaram. Suas prateleiras não eram de madeira, mas de tempo solidificado, onde repousavam fragmentos de alma dilacerada — almas fragmentadas pelas perdas prematuras, o avesso do parto, quando filhos seguem antes dos pais. Sua coleção era um arquivo de lutos e de reconstruções começadas no escuro.

“Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Da filha que já morreu” - Pedaço de mim

Ao completar setenta voltas ao sol, ele não se desfez de Canecas, mas libertou as narrativas que elas guardavam. Sempre atento às mensagens colhidas pelo Caminho, deixou que seus amigos se encontrassem com elas, permitindo que novas conversas florescessem. Agiu com a fé silenciosa de que as histórias colecionadas poderiam se entrelaçar com outras jornadas, tecendo uma tapeçaria com o toque do Eterno.

Em sua sabedoria, sabia que aquelas Canecas estavam prontas para acolher novas histórias, guardá-las e mantê-las sagradas. Quanto a ele, continuaria a gravá-las para sempre, não na cerâmica, mas no coração – o único santuário capaz de conter mistérios sem esvaziá-los.

Foi então que os olhares se cruzaram:

Caneca e Peregrino

Ela, de cerâmica simples, estampando uma onda azul e o sol amarelo em círculos com seu convite despretensioso: “Bora pra Cabo Frio”.

Ele, com o mapa da própria vida dobrado e amassado no bolso.

Olhares paralisados, ele se sentiu desafiado, não por uma pessoa, mas pelo peso de uma memória doída, amassada e muito bem guardada. Um Vazio com nome, um peregrino que precisa de abrigo.

Ela, de cerâmica simples, estampando uma onda azul e o sol amarelo em círculos com seu convite despretensioso: “Bora pra Cabo Frio”. Ele, com o mapa da própria vida dobrado e amassado no bolso. Olhares paralisados, ele se sentiu desafiado, não por uma pessoa, mas pelo peso de uma memória doída, amassada e muito bem guardada. Um Vazio com nome em um peregrino que precisa de abrigo.

E do fundo daquela louça, exalou uma memória olfativa: o cheiro de um livro (Presente do Mar) cujas páginas descrevendo as etapas da vida direcionaram sua trajetória, seus sonhos, sua vida. Estampada em sua memória a capa azul. A última etapa não seria o fim, mas o lançar-se: a história do Argonauta, que depois de construir sua casa, gerar seus filhotes e vê-los seguirem rumo ao horizonte imenso, infinito e Eterno, entrega-se à esperança profunda do oceano, construindo seu próprio barco, seu lar final.

A caneca não estava vazia. Carregava outra narrativa entalhada em seu esmalte: a de um casal que viu seus gêmeos partirem para o Eterno num mesmo suspiro: o primeiro e o último, dados antes mesmo do abraço acolhedor dos pais. Um luto-sem-fim, um silêncio que ecoava o seu próprio.

A convivência com o Colecionador de Caminhos a capacitou a acolher outras histórias com a mesma empatia. Ela sempre criava novos espaços. Espaço para a história do Peregrino.

Ele segue resiliente, construindo seu sonho e, assim, reconstruindo a própria vida dilacerada. É o encarnar de uma dor: a dor-revés de um parto há quase treze anos. Mesclando sua esperança no horizonte infinito do mar com a imagem dela seguindo para os braços do Eterno, deixando para trás a certeza de que seu pai daria conta. Seu mundo já não era o mesmo, sua atmosfera era outra.

Era esse o ofício do Colecionador: ser um cartógrafo de almas perdidas. Amigos há mais de três décadas, suas histórias já entrelaçadas e enraizadas. Sempre com empatia, ele acolhia o Vazio enlouquecedor vivenciado pelo Peregrino desde a ida de sua filha. Ele não oferecia rotas de fuga. Apontava, com o dedo quieto da amizade, para o próprio abismo, sussurrando: 

“a casa que você constrói agora deve ter quartos para essa ausência, tão presente!”

E o Peregrino construiu. Não uma casa com alicerces na terra, mas um casco sobre as águas. Um veleiro. Sonhado um ano antes da partida, sua construção não foi interrompida pela tragédia; pelo contrário, ao materializar esse sonho da última morada ele foi carinhosamente se reconstruindo, garantindo que seu Vazio teria espaço em cada passo, em cada ação. O barco tornou-se a Arca do Argonauta, destinada a carregar o nome e as cinzas daquela que primeiro se lançou ao infinito.

De volta ao café, no centro da celebração, o Peregrino segurou a caneca. E não houve explosão, mas um silêncio que era puro entendimento. Um silêncio que imprimiu em sua alma a fragrância da ausência presente. A onda azul e o sol amarelo já não eram apenas um símbolo, era o próprio mar inundado de todas as histórias.

O Argonauta das páginas era sua biografia presente-futura. A dor do casal, a sua dor-irmã. O Colecionador, ao estender-lhe aquele pedaço de cerâmica, não cumpria um ritual. Tecia histórias, deixando-se levar pelo Eterno. Abria uma vereda para que a jornada do amigo se entrelaçasse com a jornada já registrada na caneca.

O Peregrino levou a caneca aos lábios. O café era a sua própria vida: amargo, quente, necessário. E a frase Bora pra Cabo Frio já não era um convite geográfico, mas um chamado para dentro do mistério — um convite para permanecer na vida de mistérios, onde as alegrias sempre estarão permeadas com as tristezas e as dores das ausências registradas nos próprios corpos.

Ele olhou para o Colecionador. Sorrisos se estamparam, não eram encontros de respostas, mas a certeza de quem aprendeu a habitar e a transitar no hoje, apesar dos mistérios. Sorrisos que carregam o peso e a leveza da compreensão mútua. Ambos os corpos se encontraram num abraço fraterno de quem sente a dor do outro, uma dor que dói em si mesmo.

A caneca repousou. Sua missão era ser um vaso, um lugar de trânsito para histórias que se reconhecem. Ela unira os fios. Agora, cabia a cada um seguir, o mais leve possível, seu próprio caminho para o mar — não por saber a direção, mas por ter aprendido, no aroma salgado do mundo, a fragrância do Sagrado.

Bora pra Cabo Frio!

memórias de um caminhante em 20-out-2025

sexta-feira, 26 de setembro de 2025


Peregrino e a Sakura


O peregrino vai construindo seu caminho a cada novo passo, às vezes seu caminho parece emaranhar-se, outras vezes até parece pavimentado por profissionais. No entanto, ele vai se percebendo no presente sem deixar de observar suas idas, vindas, reparos e ajustes. Há três anos, esse homem parou à sombra de uma jovem Sakura que plantara e escreveu sobre o Eterno.

Um convite ao próximo passo

Naquele tempo, acreditava ter entendido algo profundo: que o presente era uma janela através da qual o infinito invadia o finito. Era uma visão cheia de esperança, que o convidava ao próximo passo. A Sakura era um símbolo de beleza presente e futuro.

Mas o caminho de um peregrino é feito de paisagens que mudam e de mochilas que se enchem com novas experiências. O tempo passou. A Sakura cresceu, tornou-se forte e frondosa, a ponto de suas raízes e sombra ameaçarem o talude que a sustenta. A beleza plantada como um presente para o futuro tornou-se um dilema para em um outro presente. E agora, o homem se vê considerando uma poda radical. Um ato de cuidado que parece contradizer o sonho de outrora.

Olhar para a árvore é, para ele, olhar para o peregrino que foi, num presente distante a muitos passos do atual presente. Percebe que as esperanças daquele homem que plantou com fé não se perderam; transformaram-se. Materializaram-se de tal forma que agora exigem uma nova coragem.

A poda não é o fim, mas uma garantia de equilíbrio. É o próximo passo necessário, tomado com a sabedoria que apenas a somatória de tantos passos anteriores poderiam oferecer. Neste presente, um caminho maior colecionando as experiências que não transbordam em sua mochila que parece ter um interior infindável.

E assim, sentado à sombra que é ainda tão densa, mas prestes a permitir que o sol transpasse seus galhos e chegue saudável para alimentar o gramado quase extinto no talude, sua reflexão vai se aprofundando. A poda necessária da Sakura ecoa uma transformação maior em sua própria vida. O mundo ao seu redor ficou mais espaçoso, sua mochila a cada passo mais cheia de vivências e aparentando cada vez mais leve, como um finito adensado pelo infinito. 

Vozes que geraram esse peregrino, que o ensinaram a caminhar, a dar seus primeiros passos com o Eterno e as vozes que ele mesmo gerou, as ensinando a firmar suas pegadas na construção do seu próprio caminho, ambas já não ressoam fisicamente ao seu redor. 

Sua alma estruturada e construída ao longo do caminho, construída com esse amor, tem agora salas grandes, vastas e silenciosas com mobília minimalista.

Se antes imaginava que o infinito se mostrava na plenitude, agora compreende que ele sussurra mais alto no vazio. Infinito que adensa o finito paramentando espaços repletos e vazios, num ir e vir dançando nas nuances das paisagens contempladas ao longo desse caminho. Essas ausências não são buracos, mas os grandes salões de sua catedral interior. É nesse silêncio que o eco do eterno se torna audível.

O infinito adensado no seu finito se move em duas direções.

O infinito, descobre ele, não tem apenas a direção do futuro; tem também a direção do passado. Afinal, é infinito! E, olhar para o "último passo" é perceber que todas as pegadas ainda o sustentam.

Ser peregrino, para aquele homem, deixou de ser apenas uma marcha em direção a um santuário distante. Tornou-se a compreensão de que o próprio caminhar é o santuário. Cada passo é um presente, um "agora" que contém todo o seu passado e todo o seu futuro. A Sakura depois de podada continuará inteiramente viva em sua memória, assim como aqueles que partiram. A grama que espera ver crescer será uma nova forma de beleza, nascida da coragem de um cuidado difícil.

O próximo passo será dado. A estrada vai se construindo. E ele segue agora com uma verdade mais tranquila, vai se apaziguando: a janela do eterno não está apenas à sua frente. Ela o envolve por completo. E o que parecia vazio era, na verdade, a dimensão infinita do amor que carrega consigo, a paisagem sempre nova da mesma e eterna jornada de ser. 

Jamais deixará de ser um peregrino!


memórias de um caminhante em 26-set-2025



segunda-feira, 22 de setembro de 2025

 


Peregrino em Terra Estranha

O peregrino não começa sua jornada com respostas. Ele começa com um peso no peito e um mapa antigo nas mãos. O mapa fala de uma cidade luminosa, de um Deus que guarda passos, que intervém com braço forte. Ele fala de Cânticos dos Degraus, salmos entoados numa subida alegre para Sião. E assim o peregrino parte, esperando ouvir o ruído das fundações do mundo se rearrumando a seu favor.

Mas a estrada é poeirenta, é longa.

A cada passo seus pensamentos e sentimentos vivenciam os paradoxos da sua caminhada alinhavada pelas suas experiências. Ele logo descobre que a jornada não é um cortejo triunfal, mas uma travessia por paisagens ambíguas. Ele vê os que caem à beira do caminho. Ele mesmo tropeça e sangra. E a pergunta, primeiro sussurrada, depois gritada para o céu silente, é: onde está o Guardião? Onde estava Ele quando o meu irmão sucumbiu? O mapa prometia proteção, mas a estrada exibe, crua e descaradamente, a aleatoriedade da fome, da sede e da dor.

Sua primeira ideia preconcebida se desfaz como areia entre os dedos: a de que fé é um contrato de imunidade. O peregrino aprende, na prática, que a promessa não é de um caminho fácil, mas de uma Presença no caminho difícil. O livramento não é a ausência da tempestade, mas a companhia inesperada dentro dela. O Deus dos Salmos não é um fazedor de milagres sob demanda; é o sustentador do fôlego que sustenta a caminhada; milagres não estão nessa equação.

E o caminhar vai se tornando a cada passo a verdadeira caminhada e vai se tornando realidade na humilhação de admitir que não entendemos quase nada. Que nossas doutrinas são pequenas jaulas onde tentamos prender um Mistério infinito.

As vozes da comunidade do peregrino ainda ecoam as suas narrativas "Deus nos trouxe até aqui!". Não deve haver dúvidas, é uma história de sobrevivência, de resgate. Mas seus olhos, ainda mais aguçados e perplexos, enxergam os vestígios individuais apagados pela narrativa coletiva. Ele pergunta: e os que não sobreviveram? Suas vidas foram menos importantes? Suas mortes foram apenas notas de rodapé num plano maior?

Uma segunda ideia misturada ao seu suor e cansaço estampada à sua frente reaparece e se agiganta como se sua caminhada não tivesse fim. Seria Deus o arquiteto de cada desgraça, traçando minuciosamente cada tragédia com um propósito inescrutável. Que divindade terrível seria essa? Talvez, propõe o cansaço sábio do peregrino, o mundo simplesmente funcione — com suas leis naturais, suas escolhas humanas livres e consequentes, sua beleza e seu caos entrelaçados. E talvez a ação de Deus não seja violar esse sistema criado e sustentado por Ele, mas em Seu Eterno poder, reduzir-se e habitar as entranhas desse mundo que simplesmente funciona.

Ele não é o autor do acaso, mas o tecelão que, com paciência infinita, pega os fios quebrados do acaso e os entrelaça na certeza de que sua redenção já está garantida, apaziguada e sustentada por Ele mesmo. Sua ação é mais sutil, mais profunda: uma persuasão amorosa, um sussurro à consciência, um convite à compaixão que surge no meio do horror. Ele não está no palco, comandando o drama. Está na plateia, chorando com os que choram. E, misteriosamente, está também nos bastidores, trabalhando para que a história siga os passos de seus peregrinos.

Isso nos leva ao abismo final, o paradoxo supremo: o que significa essa relação entre a Criatura, frágil e efêmera, e o Eterno, inatingível em Sua infinitude? Como pode o finito conter o Infinito? Como pode um caminhante construir sua caminhada percebendo o Caminho na esperança do descanso reparador ao final do dia?

Não surgem respostas, apenas intuição, não há um livro de respostas. É o silêncio que garante às perguntas um desvanecer. Não há um despertar para o entender, mas se abre um Caminho para experimentar.

É então que ele percebe.

Não é um dogma. Não é uma prova. Não é uma resposta cognitiva.

Uma fragrância! Sim, é uma fragrância!

Um aroma misterioso e inconfundível que adentra a alma não por suas portas racionais, mas por frestas que ele mesmo desconhecia. É o perfume do Mistério. Um perfume que faz seu suor e seu cansaço desaparecerem. Um aroma capaz de refrigerar e confortar seu corpo exausto, agora renovado. Sem responder a nenhuma pergunta em sua jornada, mas dissolvendo a urgência e o poder de escravizar das suas perguntas. Uma percepção que não se traduz em palavras, mas se traduz em uma paz inexplicável no meio do caos, em uma resiliência que não vem de si mesmo, em uma compaixão que supera sua lógica, daquele que decidiu adentrar-se nas entranhas de Sua Criação.

A caminhada espiritual, o peregrino descobre, não é sobre chegar a Sião com todas as respostas certas. É sobre se perder tantas vezes que você aprende a confiar não no mapa, mas no próprio ato de caminhar. É sobre trocar a fé das certezas pela confiança na Presença. É sobre parar de buscar um Deus que impeça a dor e começar a reconhecer o Deus que sofre dentro dela.

A jornada termina onde começou: no mistérioMas, agora não é mais um mistério assustador.

É um relacionamento.

E o peregrino, agora sem mapas, mas com olhos mais claros, segue seu caminho, constrói sua caminhada a cada passo. Não porque saiba para onde vai, mas porque aprendeu a reconhecer, no aroma do mundo, a fragrância do Sagrado.

memórias de um caminhante em 22-set-2025

reflexões nos Salmos 120 a 134

sábado, 10 de setembro de 2022

Presente... o curto intervalo entre o infinito do passado e do futuro!

Teria sido?

Teria sido a Presença do Eterno?

... invadindo o meu Presente!!!


atrás: Marta, Jorge, Vanessa e Fernando
frente: Lilia, Carla, Débora, Júlia, Sabrina, João, Paty e Alex
... eu no click e o Jordan estava muito ocupado brincando!


Ontem foi um daqueles dias que eu não posso me esquecer... sim, um dia para eu guardar no lado direito do peito, no mais profundo da minha Alma.

Aos poucos foram chegando, alguns deram algumas voltas a mais antes de chegar e nosso coração foi se enchendo de muita alegria e de gente muito querida. Fomos rodeados por amigos e amigas de caminhada, cada um do seu jeito, com o seu jeito de acolher.

Tem pessoas que sentem a nossa dor mais do que possamos imaginar, parecem que conseguem entrar dentro de nós e se deixam permear pelas nossas emoções, fazendo deles essas mesmas emoções.

Tem gente que é assim... olho pra isso e percebo a visita amorosa do Eterno através de cada um deles, tocando a nossa Alma, abraçando-nos com um sorriso que diz: eu sei, eu sinto... estou caminhando com você!

Relacionamentos se estreitando com a liberdade de abrir a Alma e deixar o outro a tocar. Foi tempo de sorrir, tempo de brindar e saborear à mesa recheada de tanto carinho e tanta coisa muito gostosa.

ao redor da mesa repartindo nosso alimento

cada um se alegrando com o outro

um brinde à vida eterna
... do finito para o infinito!


Um passeio pelos meus sonhos, uma viagem na história do Gabí, um sonho que nos invadiu e que tem sido uma experiência ímpar de vazio e de plenitude.

Um passeio pela nossa caminhada de reconstrução, uma caminhada recheada de amigos e de amigas sempre tão acolhedores, que dão um novo sabor a cada encontro.

Um descanso no meio da tarde, tempo para apreciar um pequeno beija-flor carinhosamente tocando cada pequena flor no gazebo, enquanto as conversas saíam deliciosamente do nosso finito para o infinito.

Um presente no presente!

É isso... estar vivenciando e sorvendo cada instante no instante em que ele acontece. 

Houve tempo para abraços e sorrisos, para ouvir várias histórias, para acolher o outro, para balançar contemplando, para descansar e para deslizarmos suavemente pelo gramado verde.


Tempos de um Presente no nosso Presente!


Tempo de abraços e sorrisos!

Marta, Débora e Jordan

Lilia, Débora e eu

Débora, Vanessa e Marta


Tempo de Estar à Mesa!

uma mesa em memória de mim

a alegria que contagia

e a certeza que vale a pena caminhar junto



Tempo de Brincar!
... 1, 2 e lá se vão!!!

Jordan, Júlia e Vanessa


Tempo de Balançar ao Vento!
Paty balançando ao vento

Débora e Jordan, novos amigos

Júlia, Jordan e João
... os 3 Jotas mais lindos!!!


Tempo de Descansar!
Paty descansando

Histórias, Balanço, Descanso e Vento
Júlia, Débora, Fernando e Vanessa

Marta e Jorge


Tempo de Repartir o Coração!
das minhas mãos e do meu coração

um pouco de mim e da minha história
pra cada um de vocês

... fiz parte dessa história...


Tempo de Contemplar!
a beleza da natureza tão viva entre nós

uma piscada de olhos e até breve outra vez

tão longe e tão perto



Sentir o calor da amizade se misturando ao calor do sol que nos abrilhantava com seus raios fortes.

Sentir o vento que apareceu sem sabermos de onde vinha, mas que trazia consigo a fragrância do Eterno nos envolvendo.

Sentir...
é isso, sentimos muito, sentimos o outro, sentimos o Eterno em nós, entre nós, o Eterno que permanece sempre!

Aos poucos cada um foi seguindo seu próprio caminho com a certeza de que nossos caminhos estão mais recheados com a vida dos outros, com a certeza de que nosso presente é o presente que cada um traz ao outro, daqueles que caminham como nós.

E, assim o sol também foi se despedindo, mostrando a todos que há mais para se viver, há muito mais para se compartilhar, há muito mais para se contemplar. 

Até parecia um adeus do infinito saindo do nosso finito, mas com a certeza de que o Eterno continuaria sempre conosco, sempre!

presente!
entre o infinito do passado e do futuro



Um abraço fraterno e até nos vermos novamente...


fotos: pelo click da Marta



sábado, 9 de julho de 2022

O Eterno no Presente

Teria sido a Presença do Eterno invadindo o meu Presente a partir das emoções que afetaram minha alma após a leitura de uma meditação do Henry Nouwen e um texto circulando em grupos de WhatsApp atribuído a Conexão Planeta.


Sakura (Cerejeira) no jardim de casa

Duas frases, uma de cada um desses textos, bailaram em idas e vindas, enquanto tento absorver o que há num contexto maior do que minha débil visão alcança.


A vida contemplativa, não é uma vida que oferece alguns bons momentos entre muitos ruins, mas uma vida que transforma todo o nosso tempo em uma janela pela qual o mundo invisível se torna visível. (Nouwen) 

 

Mais importante do que viajar para ver paisagens novas, é ver de forma nova a mesma paisagem habitual. (Proust)


Diante de qualquer situação em que me encontrar, vale uma reflexão capaz de perceber o que meus olhos, minhas emoções e minhas percepções não contemplam rapidamente. Ao exigir de mim, minha atenção, percebo através das transparências dessas barreiras inicialmente limitantes, o desmascaramento do que há num contexto maior.


Estar no presente, vivenciando cada uma das percepções sensoriais, me garante perceber a eternidade adentrando-se no meu presente. Ver o invisível, medir o infindável, observar o insondável — paradoxos do finito sendo invadido pelo infinito. É o Eterno se presenciando. Uma presença perceptível a partir da minha completude neste presente.


Estar no presente, perceber-se inteiro num local e num espaço de tempo...


... eu no hoje!


Independente dos eventos formadores do local e do tempo em que estou presente, sejam esses eventos ruins ou bons, sejam eles aterrorizadores ou apaziguadores, sejam momentos de calmaria ou mais agitados do que posso suportar. 


Nouwen, destaca em sua meditação: 

Cada momento é como uma semente que traz em si a possibilidade de se tornar o momento da mudança. Não preciso mais correr do tempo presente em busca do lugar onde acho que a vida realmente está acontecendo.


É isso, no presente a minha experiência tem forma, tem cara e tem nome. É a minha existência construindo seu caminho, passo a passo, existindo sempre apenas no presente. E, sempre que eu perceber a mesma paisagem como uma nova paisagem, sempre que eu perceber no presente a possibilidade de uma mudança, eu começo... 

... a ter uma visão mais verdadeira do mundo e da minha vida em relação ao tempo e à eternidade. Começo a vislumbrar algo de eternidade no tempo.


É o tempo presente se tornando transparente e deixando a eternidade adentrar-se, deixando aberta a...

... janela pela qual o mundo invisível se torna visível.


Satisfeito, pleno e completo, nem que seja apenas neste momento presente. Dou o próximo passo. Não há mais tédio, o vazio torna-se transparente e o meu presente, seja ele alegre ou doloroso, mergulha em...

um significado novo e profundo.


 

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

No árido Deserto...
parte do Caminho de volta

Há quase 2 anos as palavras não escapam da minha Alma, não consigo ordena-las pra fazer algum sentido... enquanto isso sigo dando meus passos às vezes com sentido e tantas outras vezes sem nenhum sentido.

Sentido indicativo de direção.
Sentido pode revelar condição da Alma.

Nos últimos dias minha Alma vaga, meu Coração parece ter perdido o ritmo... vou e volto tantas vezes e parece que não saio do lugar.

Dois dias atrás enquanto me dirigia à noitinha pela Rod D.Pedro uma música entrou na minha vida, rádio sintonizado na Antena 1 e de repente a música salta viva do rádio, me envolve e adentra minha Alma...  demorei a perceber que ela estava de fato passeando pelos corredores vazios e abatidos da minha Alma.

Algumas frases com sua bela voz e uma melodia que entrava pelos meus poros, chacoalhavam meus sentimentos... a noite parecia muito mais escura do que meus olhos viam... parecia um mergulho no oceâno escuro e infinito.

... eu queria abraçá-la mais uma vez. 

Mas encontrei-me apenas com minhas lágrimas escorrendo pelos meus olhos. Lágrimas que rolam sem controle, despencam dos meus olhos e se escondem na minha barba branca deixando um rastro sem brilho.

Seguia para um Mosteiro Beneditino Camaldulense em Suzano... ao chegar um monge veio abrir o portão, minha primeira vez nesse Mosteiro na esperança que minha Alma pudesse novamente seguir em frente. 

As vozes e os pensamentos que cruzavam minha mente pareciam refletir minhas próprias aflições e lamento, era mesmo um Lamento, um longo e triste Lamento que ia aos poucos se sobrepondo às palavras da música You Say na voz de Lauren Daigle.

... I keep fighting voices in my mind
that say I’m not enough

Essas vozes traziam a mim tudo o que eu já perdi pelo Caminho, todos os meus Fracassos estampados no filme da minha vida.

Ah! Quanta dor eu sinto... e neste momento adentrando aquela escuridão em uma grande campina, ao longe vi a Capela e os alojamentos iluminados como pontos de esperança... e uma Paz invade meu Ser, sim eu sinto a dor e como dói.

alojamento no Mosteiro Beneditino Camaldulense

E a Paz que excede meus maus pensamentos refletem o que eu preciso tanto saber pra continuar seguindo passo-a-passo essa caminhada.

... remind me once again just who I am

E as palavras da Graça Amorosa de quem me conhece muito mais que eu mesmo... ficaram ecoando e tentavam me resgatar das profundezas dos meus abismos interiores.


You say I am loved when I can’t feel a thing
You say I am strong when I think I am weak
You say I am held when I am falling short
When I don’t belong, You say that I am Yours

... and I believe!


...

Amigos me acolhem, me abraçam.

Amigos que escancaram suas vidas maltrapilhas no Caminho de volta pra Casa do Pai. 

Meu sorriso estampado na minha cara era apenas um reflexo do carinho, dos abraços apertados e do acolhimento regado a vinho e pão... na mais pura expressão das lembranças da última ceia.

Demorei a me encontrar com a cama e com meu sono... um sono sem sonhos, um sono de um maltrapilho com coração esmagado, sentindo no corpo as marcas de uma caminhada longa, as marcas das perdas de pedaços do seu próprio corpo...


...

Novas melodias de cantos de pássaros aos meus ouvidos vindo de fora atravessando a janela fechada, mas que permitia que esses belos cantos adentrassem meu quarto.

Leve claridade também penetrando por entre as venezianas me dizendo que o sol já estava brilhando e aquecendo os ninhos daqueles pássaros que cantavam com todo o vigor.

Café com amigos e nos encontros Palavras Vivas que me atordoavam... um monge partilhou suas experiências confirmando os meus próprios desertos e meus próprios demônios gritando dentro de mim.

... every single lie that tells me
 I will never measure up

Desertos antes e depois de loucuras, de tragédias, que trazem tantas vezes a percepção de caminhos sem sentido. 

Sei que não era pra ser assim... 


Ela adoeceu, não suportou sua dor, mas estava preparada para separar-se definitivamente de seu corpo e ir em direção ao Colo do Pai tão verdadeiramente expressos na letra da canção A Prayer de Madeleine Peyroux... que deve ter dado sinais a ela que a esperava de braços abertos.

... and I believe!

A música You Say não poderia expressar da forma mais inteira, íntegra e real a minha própria Alma nestes dias quando meus passos são trôpegos, paralizados, tristes, áridos e sem sentido.

... the only thing that matters now 
is everything You think of me


YOU SAY
I keep fighting voices in my mind that say I’m not enough
Every single lie that tells me I will never measure up
Am I more than just the sum of every high and every low?
Remind me once again just who I am, because I need to know.

You say I am loved when I can’t feel a thing
You say I am strong when I think I am weak
You say I am held when I am falling short
When I don’t belong, oh You say that I am Yours
And I believe, I believe
What You say of me, I believe

The only thing that matters now is everything You think of me
In You I find my worth, in You I find my identity

You say I am loved when I can’t feel a thing
You say I am strong when I think I am weak
And You say I am held when I am falling short
When I don’t belong, oh You say that I am Yours
And I believe, I believe
What You say of me, I believe

Taking all I have and now I'm laying it at Your feet
You have every failure God, and You'll have every victory

You say I am loved when I can’t feel a thing
You say I am strong when I think I am weak
You say I am held when I am falling short
When I don’t belong, oh You say that I am Yours
And I believe, I believe
What You say of me, I believe

Compositores: Paul Mabury / Lauren Daigle / Jason Ingram
Letra de You Say © Capitol Christian Music Group

sábado, 29 de outubro de 2016

Há conselhos...

... que não deveriam ser seguidos



... um memorial, um templo, uma janela no Kairós

Era uma tarde de Segunda-Feira no último mês de um Outono há quase 4 anos atrás, o sol brilhava e seguíamos no nosso Defender pra São Paulo.

Vez ou outra conversávamos um pouco. Comeu um pedaço de Chocolate e quis repartir o restante comigo, mas recusei e agradeci. Decidiu então levar para repartir com suas amigas de República.

Vez ou outra uma ligação para apoiar alguém com algum problema na entrega de serviços em algum de nossos clientes.


Vez ou outra nos olhávamos...

Seguíamos devagar, pois já tive pressa e hoje ando devagar... é verdade que para andar devagar coloquei a mim mesmo o limite de velocidade do Defender, que anda devagar.

Chegamos à USP, me beijou, desejou boa semana, desceu do jipe e fechou a porta. 

A chamei de volta, ela deu dois passos para trás e através da janela, sorrimos um ao outro, nos olhamos nos olhos e eu disse: 
"Filha, não se preocupe com maus pensamentos, mantenha-se focada no que precisa fazer e amanhã à noite nos veremos."

Para mim, teria sido mais um conselho de um pai que sabe que sua filha está caminhando com dificuldade por um período difícil... onde os sinais depressivos chegaram há pouco mais de uma semana.

Diante desses prenúncios sua mãe e eu já havíamos organizados as agendas necessárias para apoia-la:

  • pela manhã esteve no Ortomolecular
  • na 3a.feira iria à Psicóloga em São Paulo
  • e, na 4a.feira ao Psiquiatra em Campinas

Deixei-a na calçada gramada da USP próximo ao Instituto de Biologia... deixando para mim um último sorriso singelo que duraria por toda a minha vida.


Meu coração ainda pesado sabia, sabia...

"... alguma coisa estava errada, meu coração já sabia e eu não via claramente
(*) frase adaptada da Canção On The Level de Leonard Cohen


E, imaginei

... imaginei que se ela estivesse focada sabendo que a estávamos apoiando e que juntos estávamos suportando as suas dificuldades, logo ela estaria em casa

... imaginei que se ela estivesse focada no que precisava fazer, deixaria as distrações, maus pensamentos e dores da alma de lado

... imaginei que se ela estivesse focada e se lembrasse de suas certezas logo estaria em casa, acolhida e cuidada

... imaginei que se ela estivesse focada, sentido-se amada e acolhida, isso seria suficiente para suportar pouco mais de 24 horas, pois logo estaria em casa 

... imaginei...


Mas, não imaginei...

... não imaginei que estávamos falando de coisas diferentes, nossos pensamentos voavam por caminhos diferentes

... não imaginei que ela pensava em seguir por atalhos por não suportar mais a possibilidade de sua mente seguir por caminhos que ela não queria

... não imaginei que seu olhar doce e singelo nos meus olhos teria sido a sua última contemplação de suas origens

... não imaginei que ela pensava nas suas origens mais remotas, de onde ela veio e estava ansiosa para se jogar nos braços do Eterno

... não imaginei...

 

E,
o Eterno a acolheu para sempre!

Menos de 24 horas do último Conselho de um pai... ela decidiu seguir esse Conselho, ela se focou no que estava pensando, se focou no que tinha pra fazer, se focou na busca do seu definitivo Retorno à Casa do Pai, pois ela já estava preparada para... se jogar nos braços do Eterno!

"Minha necessidade é clara, estou morrendo para tê-lo próximo a mim... Senhor, eu não me pertenço mais e se estiver esperando por mim eu não tenho medo de morrer!"
"Eu estou preparada para ir, para separar meu corpo da minha alma, o Senhor sabe!... Senhor, eu não me pertenço mais e se estiver esperando por mim eu não tenho medo de morrer!" 

(*) tradução livre de um trecho da Canção A Prayer de Madeleine Peyroux


... meus pensamentos e minhas lembranças enquanto caminhava sozinho ouvindo Leonard Cohen hoje pela manhã próximo de casa


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