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segunda-feira, 20 de outubro de 2025


 

Colecionador de Caminhos


O Colecionador de Caminhos não colecionava objetos, mas o eco de passos que tropeçaram. Suas prateleiras não eram de madeira, mas de tempo solidificado, onde repousavam fragmentos de alma dilacerada — almas fragmentadas pelas perdas prematuras, o avesso do parto, quando filhos seguem antes dos pais. Sua coleção era um arquivo de lutos e de reconstruções começadas no escuro.

“Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Da filha que já morreu” - Pedaço de mim

Ao completar setenta voltas ao sol, ele não se desfez de Canecas, mas libertou as narrativas que elas guardavam. Sempre atento às mensagens colhidas pelo Caminho, deixou que seus amigos se encontrassem com elas, permitindo que novas conversas florescessem. Agiu com a fé silenciosa de que as histórias colecionadas poderiam se entrelaçar com outras jornadas, tecendo uma tapeçaria com o toque do Eterno.

Em sua sabedoria, sabia que aquelas Canecas estavam prontas para acolher novas histórias, guardá-las e mantê-las sagradas. Quanto a ele, continuaria a gravá-las para sempre, não na cerâmica, mas no coração – o único santuário capaz de conter mistérios sem esvaziá-los.

Foi então que os olhares se cruzaram:

Caneca e Peregrino

Ela, de cerâmica simples, estampando uma onda azul e o sol amarelo em círculos com seu convite despretensioso: “Bora pra Cabo Frio”.

Ele, com o mapa da própria vida dobrado e amassado no bolso.

Olhares paralisados, ele se sentiu desafiado, não por uma pessoa, mas pelo peso de uma memória doída, amassada e muito bem guardada. Um Vazio com nome, um peregrino que precisa de abrigo.

Ela, de cerâmica simples, estampando uma onda azul e o sol amarelo em círculos com seu convite despretensioso: “Bora pra Cabo Frio”. Ele, com o mapa da própria vida dobrado e amassado no bolso. Olhares paralisados, ele se sentiu desafiado, não por uma pessoa, mas pelo peso de uma memória doída, amassada e muito bem guardada. Um Vazio com nome em um peregrino que precisa de abrigo.

E do fundo daquela louça, exalou uma memória olfativa: o cheiro de um livro (Presente do Mar) cujas páginas descrevendo as etapas da vida direcionaram sua trajetória, seus sonhos, sua vida. Estampada em sua memória a capa azul. A última etapa não seria o fim, mas o lançar-se: a história do Argonauta, que depois de construir sua casa, gerar seus filhotes e vê-los seguirem rumo ao horizonte imenso, infinito e Eterno, entrega-se à esperança profunda do oceano, construindo seu próprio barco, seu lar final.

A caneca não estava vazia. Carregava outra narrativa entalhada em seu esmalte: a de um casal que viu seus gêmeos partirem para o Eterno num mesmo suspiro: o primeiro e o último, dados antes mesmo do abraço acolhedor dos pais. Um luto-sem-fim, um silêncio que ecoava o seu próprio.

A convivência com o Colecionador de Caminhos a capacitou a acolher outras histórias com a mesma empatia. Ela sempre criava novos espaços. Espaço para a história do Peregrino.

Ele segue resiliente, construindo seu sonho e, assim, reconstruindo a própria vida dilacerada. É o encarnar de uma dor: a dor-revés de um parto há quase treze anos. Mesclando sua esperança no horizonte infinito do mar com a imagem dela seguindo para os braços do Eterno, deixando para trás a certeza de que seu pai daria conta. Seu mundo já não era o mesmo, sua atmosfera era outra.

Era esse o ofício do Colecionador: ser um cartógrafo de almas perdidas. Amigos há mais de três décadas, suas histórias já entrelaçadas e enraizadas. Sempre com empatia, ele acolhia o Vazio enlouquecedor vivenciado pelo Peregrino desde a ida de sua filha. Ele não oferecia rotas de fuga. Apontava, com o dedo quieto da amizade, para o próprio abismo, sussurrando: 

“a casa que você constrói agora deve ter quartos para essa ausência, tão presente!”

E o Peregrino construiu. Não uma casa com alicerces na terra, mas um casco sobre as águas. Um veleiro. Sonhado um ano antes da partida, sua construção não foi interrompida pela tragédia; pelo contrário, ao materializar esse sonho da última morada ele foi carinhosamente se reconstruindo, garantindo que seu Vazio teria espaço em cada passo, em cada ação. O barco tornou-se a Arca do Argonauta, destinada a carregar o nome e as cinzas daquela que primeiro se lançou ao infinito.

De volta ao café, no centro da celebração, o Peregrino segurou a caneca. E não houve explosão, mas um silêncio que era puro entendimento. Um silêncio que imprimiu em sua alma a fragrância da ausência presente. A onda azul e o sol amarelo já não eram apenas um símbolo, era o próprio mar inundado de todas as histórias.

O Argonauta das páginas era sua biografia presente-futura. A dor do casal, a sua dor-irmã. O Colecionador, ao estender-lhe aquele pedaço de cerâmica, não cumpria um ritual. Tecia histórias, deixando-se levar pelo Eterno. Abria uma vereda para que a jornada do amigo se entrelaçasse com a jornada já registrada na caneca.

O Peregrino levou a caneca aos lábios. O café era a sua própria vida: amargo, quente, necessário. E a frase Bora pra Cabo Frio já não era um convite geográfico, mas um chamado para dentro do mistério — um convite para permanecer na vida de mistérios, onde as alegrias sempre estarão permeadas com as tristezas e as dores das ausências registradas nos próprios corpos.

Ele olhou para o Colecionador. Sorrisos se estamparam, não eram encontros de respostas, mas a certeza de quem aprendeu a habitar e a transitar no hoje, apesar dos mistérios. Sorrisos que carregam o peso e a leveza da compreensão mútua. Ambos os corpos se encontraram num abraço fraterno de quem sente a dor do outro, uma dor que dói em si mesmo.

A caneca repousou. Sua missão era ser um vaso, um lugar de trânsito para histórias que se reconhecem. Ela unira os fios. Agora, cabia a cada um seguir, o mais leve possível, seu próprio caminho para o mar — não por saber a direção, mas por ter aprendido, no aroma salgado do mundo, a fragrância do Sagrado.

Bora pra Cabo Frio!

memórias de um caminhante em 20-out-2025

sexta-feira, 26 de setembro de 2025


Peregrino e a Sakura


O peregrino vai construindo seu caminho a cada novo passo, às vezes seu caminho parece emaranhar-se, outras vezes até parece pavimentado por profissionais. No entanto, ele vai se percebendo no presente sem deixar de observar suas idas, vindas, reparos e ajustes. Há três anos, esse homem parou à sombra de uma jovem Sakura que plantara e escreveu sobre o Eterno.

Um convite ao próximo passo

Naquele tempo, acreditava ter entendido algo profundo: que o presente era uma janela através da qual o infinito invadia o finito. Era uma visão cheia de esperança, que o convidava ao próximo passo. A Sakura era um símbolo de beleza presente e futuro.

Mas o caminho de um peregrino é feito de paisagens que mudam e de mochilas que se enchem com novas experiências. O tempo passou. A Sakura cresceu, tornou-se forte e frondosa, a ponto de suas raízes e sombra ameaçarem o talude que a sustenta. A beleza plantada como um presente para o futuro tornou-se um dilema para em um outro presente. E agora, o homem se vê considerando uma poda radical. Um ato de cuidado que parece contradizer o sonho de outrora.

Olhar para a árvore é, para ele, olhar para o peregrino que foi, num presente distante a muitos passos do atual presente. Percebe que as esperanças daquele homem que plantou com fé não se perderam; transformaram-se. Materializaram-se de tal forma que agora exigem uma nova coragem.

A poda não é o fim, mas uma garantia de equilíbrio. É o próximo passo necessário, tomado com a sabedoria que apenas a somatória de tantos passos anteriores poderiam oferecer. Neste presente, um caminho maior colecionando as experiências que não transbordam em sua mochila que parece ter um interior infindável.

E assim, sentado à sombra que é ainda tão densa, mas prestes a permitir que o sol transpasse seus galhos e chegue saudável para alimentar o gramado quase extinto no talude, sua reflexão vai se aprofundando. A poda necessária da Sakura ecoa uma transformação maior em sua própria vida. O mundo ao seu redor ficou mais espaçoso, sua mochila a cada passo mais cheia de vivências e aparentando cada vez mais leve, como um finito adensado pelo infinito. 

Vozes que geraram esse peregrino, que o ensinaram a caminhar, a dar seus primeiros passos com o Eterno e as vozes que ele mesmo gerou, as ensinando a firmar suas pegadas na construção do seu próprio caminho, ambas já não ressoam fisicamente ao seu redor. 

Sua alma estruturada e construída ao longo do caminho, construída com esse amor, tem agora salas grandes, vastas e silenciosas com mobília minimalista.

Se antes imaginava que o infinito se mostrava na plenitude, agora compreende que ele sussurra mais alto no vazio. Infinito que adensa o finito paramentando espaços repletos e vazios, num ir e vir dançando nas nuances das paisagens contempladas ao longo desse caminho. Essas ausências não são buracos, mas os grandes salões de sua catedral interior. É nesse silêncio que o eco do eterno se torna audível.

O infinito adensado no seu finito se move em duas direções.

O infinito, descobre ele, não tem apenas a direção do futuro; tem também a direção do passado. Afinal, é infinito! E, olhar para o "último passo" é perceber que todas as pegadas ainda o sustentam.

Ser peregrino, para aquele homem, deixou de ser apenas uma marcha em direção a um santuário distante. Tornou-se a compreensão de que o próprio caminhar é o santuário. Cada passo é um presente, um "agora" que contém todo o seu passado e todo o seu futuro. A Sakura depois de podada continuará inteiramente viva em sua memória, assim como aqueles que partiram. A grama que espera ver crescer será uma nova forma de beleza, nascida da coragem de um cuidado difícil.

O próximo passo será dado. A estrada vai se construindo. E ele segue agora com uma verdade mais tranquila, vai se apaziguando: a janela do eterno não está apenas à sua frente. Ela o envolve por completo. E o que parecia vazio era, na verdade, a dimensão infinita do amor que carrega consigo, a paisagem sempre nova da mesma e eterna jornada de ser. 

Jamais deixará de ser um peregrino!


memórias de um caminhante em 26-set-2025



segunda-feira, 22 de setembro de 2025

 


Peregrino em Terra Estranha

O peregrino não começa sua jornada com respostas. Ele começa com um peso no peito e um mapa antigo nas mãos. O mapa fala de uma cidade luminosa, de um Deus que guarda passos, que intervém com braço forte. Ele fala de Cânticos dos Degraus, salmos entoados numa subida alegre para Sião. E assim o peregrino parte, esperando ouvir o ruído das fundações do mundo se rearrumando a seu favor.

Mas a estrada é poeirenta, é longa.

A cada passo seus pensamentos e sentimentos vivenciam os paradoxos da sua caminhada alinhavada pelas suas experiências. Ele logo descobre que a jornada não é um cortejo triunfal, mas uma travessia por paisagens ambíguas. Ele vê os que caem à beira do caminho. Ele mesmo tropeça e sangra. E a pergunta, primeiro sussurrada, depois gritada para o céu silente, é: onde está o Guardião? Onde estava Ele quando o meu irmão sucumbiu? O mapa prometia proteção, mas a estrada exibe, crua e descaradamente, a aleatoriedade da fome, da sede e da dor.

Sua primeira ideia preconcebida se desfaz como areia entre os dedos: a de que fé é um contrato de imunidade. O peregrino aprende, na prática, que a promessa não é de um caminho fácil, mas de uma Presença no caminho difícil. O livramento não é a ausência da tempestade, mas a companhia inesperada dentro dela. O Deus dos Salmos não é um fazedor de milagres sob demanda; é o sustentador do fôlego que sustenta a caminhada; milagres não estão nessa equação.

E o caminhar vai se tornando a cada passo a verdadeira caminhada e vai se tornando realidade na humilhação de admitir que não entendemos quase nada. Que nossas doutrinas são pequenas jaulas onde tentamos prender um Mistério infinito.

As vozes da comunidade do peregrino ainda ecoam as suas narrativas "Deus nos trouxe até aqui!". Não deve haver dúvidas, é uma história de sobrevivência, de resgate. Mas seus olhos, ainda mais aguçados e perplexos, enxergam os vestígios individuais apagados pela narrativa coletiva. Ele pergunta: e os que não sobreviveram? Suas vidas foram menos importantes? Suas mortes foram apenas notas de rodapé num plano maior?

Uma segunda ideia misturada ao seu suor e cansaço estampada à sua frente reaparece e se agiganta como se sua caminhada não tivesse fim. Seria Deus o arquiteto de cada desgraça, traçando minuciosamente cada tragédia com um propósito inescrutável. Que divindade terrível seria essa? Talvez, propõe o cansaço sábio do peregrino, o mundo simplesmente funcione — com suas leis naturais, suas escolhas humanas livres e consequentes, sua beleza e seu caos entrelaçados. E talvez a ação de Deus não seja violar esse sistema criado e sustentado por Ele, mas em Seu Eterno poder, reduzir-se e habitar as entranhas desse mundo que simplesmente funciona.

Ele não é o autor do acaso, mas o tecelão que, com paciência infinita, pega os fios quebrados do acaso e os entrelaça na certeza de que sua redenção já está garantida, apaziguada e sustentada por Ele mesmo. Sua ação é mais sutil, mais profunda: uma persuasão amorosa, um sussurro à consciência, um convite à compaixão que surge no meio do horror. Ele não está no palco, comandando o drama. Está na plateia, chorando com os que choram. E, misteriosamente, está também nos bastidores, trabalhando para que a história siga os passos de seus peregrinos.

Isso nos leva ao abismo final, o paradoxo supremo: o que significa essa relação entre a Criatura, frágil e efêmera, e o Eterno, inatingível em Sua infinitude? Como pode o finito conter o Infinito? Como pode um caminhante construir sua caminhada percebendo o Caminho na esperança do descanso reparador ao final do dia?

Não surgem respostas, apenas intuição, não há um livro de respostas. É o silêncio que garante às perguntas um desvanecer. Não há um despertar para o entender, mas se abre um Caminho para experimentar.

É então que ele percebe.

Não é um dogma. Não é uma prova. Não é uma resposta cognitiva.

Uma fragrância! Sim, é uma fragrância!

Um aroma misterioso e inconfundível que adentra a alma não por suas portas racionais, mas por frestas que ele mesmo desconhecia. É o perfume do Mistério. Um perfume que faz seu suor e seu cansaço desaparecerem. Um aroma capaz de refrigerar e confortar seu corpo exausto, agora renovado. Sem responder a nenhuma pergunta em sua jornada, mas dissolvendo a urgência e o poder de escravizar das suas perguntas. Uma percepção que não se traduz em palavras, mas se traduz em uma paz inexplicável no meio do caos, em uma resiliência que não vem de si mesmo, em uma compaixão que supera sua lógica, daquele que decidiu adentrar-se nas entranhas de Sua Criação.

A caminhada espiritual, o peregrino descobre, não é sobre chegar a Sião com todas as respostas certas. É sobre se perder tantas vezes que você aprende a confiar não no mapa, mas no próprio ato de caminhar. É sobre trocar a fé das certezas pela confiança na Presença. É sobre parar de buscar um Deus que impeça a dor e começar a reconhecer o Deus que sofre dentro dela.

A jornada termina onde começou: no mistérioMas, agora não é mais um mistério assustador.

É um relacionamento.

E o peregrino, agora sem mapas, mas com olhos mais claros, segue seu caminho, constrói sua caminhada a cada passo. Não porque saiba para onde vai, mas porque aprendeu a reconhecer, no aroma do mundo, a fragrância do Sagrado.

memórias de um caminhante em 22-set-2025

reflexões nos Salmos 120 a 134

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